Liberdade adquirida

Em Paris, longe de tudo e de todos e próxima da arte, Márcia Tiburi não perde o sentido de humanidade

Insta: Márcia Tiburi

O convite era irrecusável. Um encontro com Márcia Tiburi, a quem não vejo há anos. Pois aqui estamos. Ela, longe da família, dos amigos e de sua terra, sozinha em seu exílio. Nós, do lado de cá do Atlântico, contaminados pela tristeza e perplexidade com o país desventuroso. Em sua primeira resposta, sinto a emoção da voz que vem de longe para nos abraçar. E ela nos mergulha, na próxima hora, em seu mundo de beleza, lucidez, indignação. E afeto. Em Márcia, colhemos a potência do pensamento livre, corajoso e radical, cujo maior primado talvez seja o de jamais se descuidar do sentido de humanidade. Mesmo ali, em sua atual morada vazia de gente, entre livros, papéis, telas e potes de tinta, é no encontro com o outro que ela busca o sentido das coisas.

José Eduardo Gonçalves

Há pouco menos de um mês, ficamos sabendo que a filósofa e escritora Márcia Tiburi estava residindo em Paris. Além de dar aula em uma universidade local, de continuar escrevendo intensamente, tanto ficção quanto artigos de filosofia, ela tem dedicado parte de seu tempo a produzir arte, mergulhada em seu ateliê. Foi isso o que mais nos motivou a entrar em contato com ela, acionar a fotógrafa Gláucia Nogueira e convidar o jornalista e escritor José Eduardo Gonçalves para participar da conversa com Márcia. Ela gentilmente nos recebeu para mais de uma hora de bate-papo em que falou do exílio, primeiro nos Estados Unidos e há quase dois anos em Paris, da vida, de aprender a colar os cacos e da arte.

“Ninguém sabe muito dessa parte relacionada às artes, porque também não era o meu foco. Mas me formei em artes plásticas ainda bem nova, fiz algumas coisas esporádicas e depois, quando fiz a faculdade de filosofia, o mestrado e o doutorado também em filosofia, esse mundo foi me seduzindo mais do que o mundo das artes, por incrível que pareça. Eu acho que só voltei para as artes porque fiquei longe de tudo”.

Sem peso, sem rosto crispado, apenas uma Márcia, a princípio com a voz levemente exaltada, ela vai nos contando um pouco sobre sua vida atual, distante de todos, imersa em um grande vazio e um grande silêncio, como ela diz, mas também profundamente mergulhada em sua potência criativa. “Vocês já pararam para pensar, como seria se vocês ficassem muito sozinhos, mas muito sozinhos mesmo, como aconteceu comigo nos Estados Unidos, onde eu fiquei um mês sem falar com ninguém, no meio da neve?” A pergunta dela veio logo no começo e nenhum de nós respondeu. Ela mesma prosseguiu a narrativa: “Me dei conta de que, quando eu fico sozinha, eu desenho. Então, voltei a desenhar. Aí eu pensei, se eu vou ficar fazendo isso aqui, vou levar isso a sério.”

Esse foi o prelúdio da conversa com a Márcia Tiburi que o público já conhece. Aquela que pode até se divertir com o que faz, como vai contar mais adiante, mas que vai fundo. Márcia não brinca com a vida. Ela conta que, na universidade francesa, resolveram cuidar dela. A mecenas brasileira Sandra Hegedüs providenciou o ateliê, ela ganhou uma bolsa de uma instituição que se chama Arts Protection Found, com a exigência de, ao final, fará uma exposição.

“Eu pensei: já que eu tenho que fazer, vou fazer. Gente, eu não tenho como voltar para o Brasil, eu não posso, né? Então eu tenho que me arrumar por aqui. Não é tipo não deu certo lá e eu tenho que arrumar alguma coisa aqui. Eu sou uma pessoa exilada, não dá para fingir que isso não está acontecendo. É um exílio mesmo.” A voz de Márcia, a expressão, continuam leves, mas contundentes.

Ela explica ainda que o exílio não é uma questão decisiva para o tipo de apoio que tem recebido: as perseguições políticas são o suficiente. Por sinal, essas questões também emergem em seu trabalho na arte, mesmo não sendo algo predeterminado e, por isso mesmo a surpreende: “Eu invisto nas questões poéticas inerentes ao trabalho propriamente dito e, nas artes visuais, algo que nunca fiz antes, de repente, vem tudo à tona e é uma coisa super política”. Márcia cita o exemplo do que produziu nos Estados Unidos, antes do período parisiense. Lá, criou um jogo para si que era assim: escrevia e não podia errar e também nunca podia ficar pensando antes, nem mesmo fazer rascunhos. Era a escrita que a guiava e a história ia surgindo. Tudo a mão e, no meio desse fazer, as ilustrações também aconteciam. “Mas é uma história com começo, meio e fim. Me diverti com isso”, ela fala, enquanto agora somos nós que nos divertimos quando ela diz que tudo foi feito muito devagar… “Eu sou lenta.”

Oi? Como assim, lenta? Isso a gente pensou na hora que escutou a frase, mas o Zé Eduardo veio logo em seguida: “Essa vontade de trabalhar com arte surgiu nesse momento tormentoso? Ficção, você não está escrevendo, né?

Mais uma surpresa, num início de noite para nós, já bem mais tarde para Márcia, em Paris. Ela responde que sim, não só está escrevendo ficção, mas terminou um romance “ontem”, que acredita, tem grande chance de sair com pseudônimo. Também por esses dias, será publicado um ensaio, que já está na gráfica, que se chama Complexo de Vira-Latas – Análise da humilhação brasileira. “Comecei a trabalhar esse livro em 2016. Trabalho aos poucos”.

Ok, Márcia, mas a gente quer saber, você diz que é lenta? “Gente, eu não tenho mais o que fazer, né? Assim, de boas, eu fico sozinha o tempo todo, dou aulas, que claro que me tira um certo tempo, mas eu fico lendo, escrevendo, desenhando…tomo banho uma vez por dia, como duas vezes por dia, as pessoas falam: você faz coisa demais. Mas eu não dirijo carro, não ando de bicicleta, não assisto televisão, não nado, não vejo filme. Eu não faço um monte de coisas que as pessoas fazem. Eu deixo de aplicar minha energia nessas coisas e aplico nisso”, ela diz, sem a afetação que uma fala dessas poderia ter. Ela simplesmente nos explica que é assim e pronto. E o certo é que, para ela, isso não é nada demais.

Há também uma tática revelada por Márcia, utilíssima de ser expressa em tempos de ansiedade paranoica: é um dia de cada vez. E outra. preciosa também: ela diz que não consegue ficar pensando nas coisas antes da página em branco. “As coisas acontecem. Eu sento e escrevo. A história acontece enquanto eu estou escrevendo. Quando eu saio dali aquele troço não fica tomando a minha cabeça. Se eu volto na página em branco e agora é hora de desenhar, eu desenho. E são dois lugares que funcionam de um jeito diferente. Claro que tem interseções que eu começo a ver no meio do caminho. Vejo, por exemplo, que certos personagens sempre retornam, certas cores estão se repetindo. Aí eu começo a fazer uma espécie de metaobservação dos meus próprios processos, onde vou juntando coisas sem perceber”,

Deixar acontecer, brincar com isso. Há uma dose altíssima de liberdade e coragem nessa ação e Márcia sabe disso. “Coragem não é só uma categoria política, é uma categoria estética e vocês podem perceber, a estética dos fascistas é uma estética covarde.”  No trabalho que está desenvolvendo no campo das artes, ela diz que escolheu o conceito da colonização, algo que faz parte de sua trajetória faz tempo, para debater e tencionar a experiência colonizadora das próprias imagens. Há imagens que remetem à ditadura militar no Brasil, algo que Márcia foi descobrindo, aos poucos, que estava recalcado dentro dela. Há, ainda, o que ela enxerga da intensa experiência da incomunicabilidade na pandemia: “Porque só temos o virtual, que é melhor que ter do que não ter nada, mas a gente sabe que há uma incomunicabilidade flutuante nesses processos”, analisa. Há ainda muito mais, muito mais.

O que Márcia faz agora é colar os cacos, amarrar os fios e juntar tudo nesse processo. “Eu estou muito perplexa com essa nova liberdade adquirida. Acho que, pessoalmente, não estou mais na idade de fazer muitas experiências na vida. Então, vou ficar fazendo isso. Se eu for morar no Japão, no Brasil, em Cuba, na Rússia nos Estados Unidos, na França, sei lá onde vou morar, quero ter um ateliê eu vou continuar fazendo isso. Toda democracia consistente precisa ter uma valorização das artes, seja ao nível do estado, de diversas instituições, da cultura. A gente precisa de arte, arte faz bem para cabeça das pessoas. Eu não digo que a arte está me salvando porque é outra coisa, é o exercício da liberdade”.

Salve Marcia Tiburi, que encontra na ação criativa uma forma de se afastar de sofrimentos que poderiam ser destrutivos. Não quer dizer que não sinta compaixão, tristeza, saudade, angústia, mas ela sabe que é a atitude criativa que a salva desses adoecimentos. Ela conta que a exposição vai ter muito dourado, aliás, uma “cor”, que ela detesta e que acha o máximo do cafona, mas como diz, importante é preservar a liberdade do processo.

Por fim, indagada sobre as expectativas que tem de como seu trabalho será recebido pelo público ela sintetiza: “A gente sempre se preocupa de como o outro vai receber, mas a criação em si, ao mesmo tempo, seja um artigo jornalístico, seja o design de um móvel, uma pintura, uma corrida na rua, cada objeto desse mundo com o qual a gente se relaciona tem uma demanda interna, uma exigência interna. Você tem que deixar acontecer. Na escrita isso acontece muito, porque tem horas que a coisa engrena, fica tudo muito claro. Eu dou risadas quando começo a ver as soluções, que eu acho que não fui eu que criei. São demandas internas. Com os livros de filosofia é a mesma coisa, acho que é até mais óbvio, tem coisas que você tem que dar conta, mas, se você prestar muita atenção, vai ter insights. E, na pintura eu estou vendo que é a mesma coisa. Vou me congratulando com o que vai acontecendo”.

FOTOS: Glaucia Nogueira

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