Sandra Hegedüs

Para a mecenas e colecionadora brasileira radicada em Paris, arte é um projeto de vida que faz seus olhos brilharem

Insta: Sandra Hegedüs

Dizem que o amor começa onde a paixão termina. Bobagem. Se há um abismo entre teoria e prática, essa máxima cai por terra ao conhecer um pouquinho da história da paulistana Sandra Hegedüs, radicada em Paris desde a década de 1990. O amor que fez com que ela transformasse as artes visuais em projeto de vida, ao criar em 2009, o SAM Art Projects – fundação voltada à promoção no exterior de artistas fora do eixo Europa-EUA – em nada interfere na paixão que a leva na mesma direção, fazendo seus olhos brilharem quando enxerga em uma obra aquilo que também dispara seu coração.

Esse latifúndio que não tem unidade de medida de comprimento, mas um sentimento onde tudo cabe, faz dela uma colecionadora de peso, mecenas de alto quilate, tida como uma das principais entre os brasileiros que residem no exterior e uma curadora respeitada, mesmo que essas funções nem sempre se amalgamem. Para ela há diferentes colecionadores – os que nunca estiveram com um artista na vida e os que, além de comprar arte, estabelecem uma relação de afeto com o artista e a obra – e, no caso do curador, que tende a ser mais frio e objetivo ao selecionar o que entra em uma exposição, esse não é o caminho que Sandra costuma percorrer: “Sou guiada pelo amor pela arte e pelos artistas”, afirma.

“Chegou um momento para mim que achei que somente colecionar era pouco. Achei que tinha que pensar em algo mais.”

Por isso, palmilhar cada mínimo trecho do apartamento em que vive, em Paris, aberto com exclusividade para o Tendências pelas lentes da fotógrafa Glaucia Nogueira – também radicada em Paris – é compreender um pouco dessa mistura de amor e paixão, pelo cuidadoso acervo que Sandra tem em casa (ele está na nossa matéria de amanhã, não perca!). Para ela, colecionar, puramente por colecionar, sempre foi pouco. “Chegou um momento pra mim que achei que somente colecionar, era pouco, algo muito passivo. Achei que tinha que pensar em algo mais, já que o que me interessava mais era o processo artístico”, lembra. E, assim, nasceu, em 2009, o SAM Art Project, fundação criada por ela, pautada em dois eixos: um prêmio anual de arte contemporânea e a seleção de um nome, também feita anualmente, para uma residência em Paris, que é finalizada por uma exposição no Palais de Tokyo. O projeto, que já recebeu brasileiros que se consolidaram no mercado nos últimos anos, como Henrique Oliveira e Rodrigo Braga, tem como próximo convidado o artista carioca Maxwell Alexandre.

“Consegui na cara dura. Sabe aquele jeitinho brasileiro para pedir as coisas que ninguém pede e você, mesmo sabendo disso se dá essa licença poética?

O trabalho de Sandra com as artes é intenso. Além do SAM Art Projetc, ela integra o círculo internacional do Centro Georges Pompidou, responsável pela aquisição de obras de artistas latino-americanos, é também presidente do conselho administrativo da École Nationale Supérieure D’Arte, em Nice, e mais uma lista extensa de ações ligadas à arte. Seu nome é tão respeitado, que não raro e, principalmente em tempos de pandemia, um museu se abre somente para a visita dela e de sua assistente. À pergunta de como conseguiu todo esse respeito e notoriedade, ela nos diverte com a resposta: “Consegui na cara dura. Sabe aquele jeitinho brasileiro para pedir as coisas que ninguém pede e você, mesmo sabendo disso se dá essa licença poética? As pessoas se espantam, mas você acaba conseguindo. Eu sabia muito bem o estava fazendo e a ideia inicial da fundação acabou virando uma colmeia. Dou a essas instituições a oportunidade de mostrar artistas que já estão bombando em seus países e esses artistas, depois, saem voando”, diz.

“Você tem que ter muita humildade, não virar uma perua, nem ter aquele ar blasé. Não dá para esquecer de onde você veio e eu me sinto agradecida o tempo todo, da sorte de poder fazer o que amo”.

É também encantador ouvir Sandra falar que nada disso a deslumbra, nem altera seu jeito – bastante extrovertido – de ser. “Você tem que ter muita humildade, não virar uma perua, nem ter aquele ar blasé. Não dá para esquecer de onde você veio e eu me sinto agradecida o tempo todo, da sorte de poder fazer o que amo. Tem que deixar o olho ficar brilhando para descobrir coisas novas todos os dias”.

Além de visitar museus para os quais ela é sempre convidada, o que considera um privilégio, Sandra também percorre ateliês pela cidade rotineiramente. Fala com emoção de cada trabalho, de cada artista com quem tem contato. Questionada sobre os brasileiros que tem chamado sua atenção, ela cita, entre outros, Efe Godoy, de Belo Horizonte. “Eu me sinto muito bem no mundo da Efe. É um mundo híbrido, cor de rosa. Me sinto híbrida também. Sou dali, mas estou aqui, vou por vários mundos”, tergiversa.

“Eu sou do mundo da Disneylândia, sou velha, sou século 20. O digital é complicado para mim. Funciona quando estou em uma exposição. Funciona fora da minha casa, mas não entra no meu interior”.

E a arte digital? Como Sandra Hegedüs vê o boom que acontece atualmente em tempos de isolamento social? “Eu sou do mundo da Disneylândia, sou velha, sou século 20. O digital é complicado para mim. Funciona quando estou em uma exposição. Funciona fora da minha casa, mas não entra no meu interior. Quando vou a um museu, esse tipo de coisa me interessa, realidade virtual me interessa, mas não me vejo comprando uma obra assim. A experiência me interessa, mas não a aquisição”.

Como o assunto esbarra na pandemia, Sandra também comenta sobre os perigos do isolamento. “Acho muito perigoso. Por exemplo, ontem eu participei de um júri que foi pelo Zoom. Num mundo normal, estaríamos em volta de uma mesa, conversando, um olhando no olho do outro, mas eu estava em casa. Não é superagradável, mas ainda bem que temos isso, senão não teríamos nada”, simplifica.

Se a gente ensina o olhar, a vida muda. Até mesmo quando estamos em um confinamento. A gente passa a ter outras referências. Para mim, a importância da educação e da cultura está aí”.

A sequência dessa conversa não poderia ser outra: redes sociais. “Todos os stories que tenho feito não faziam parte do meu trabalho há um ano, nunca fizeram. Eu costumava postar fotos das férias, do meu gato, aí veio o confinamento e eu fiz uma live a convite da Consuelo Blocker, que é minha amiga de infância e mora em Florença e, a partir dali, foi impossível parar. Consuelo me pediu para falar de arte e, depois, muita gente começou a me pedir a mesma coisa. Foi um exercício bem interessante. Como falar de arte de uma forma sintética, para gente que não é do mundo das artes? Como falar de um quadro, de um conceito, para pessoas que nunca foram no Louvre, que não tem noção da história da arte? Aí eu pensei: não vou ficar falando de arte para os parisienses que vão olhar e perguntar se eu estou louca, afinal, eu não sou uma historiadora de arte. Não é para o meu povo da arte que eu estou falando. Eu estou tentando tornar a arte simples e atrativa para essas pessoas, as mais variadas. Se a gente ensina o olhar, a vida muda. Até mesmo quando estamos em um confinamento. A gente passa a ter outras referências. Para mim, a importância da educação e da cultura está aí. Ninguém tira esse olhar da gente, se a pessoa é rica ou pobre, quando ela aguça o olhar, muda tudo”, ensina.

“É o meu país e mesmo se sua imagem está difícil nesse momento, é um país de qualidade, que não pode ser abandonado. A luta continua, a resistência continua”.

Convidada para integrar o board da Bienal de São Paulo, ela se empolga por poder fazer o papel inverso do qual tem se dedicado na SAM Art. “É muito importante levar as pessoas de fora para conhecer o nosso país, o Inhotim, as feiras de arte do Rio e de São Paulo. É o meu país e mesmo se sua imagem está difícil nesse momento, é um país de qualidade, que não pode ser abandonado. A luta continua, a resistência continua”, ressalta.

E como Sandra vê o Brasil de hoje? “Tristeza indescritível saber que tem mais de 300  mil pessoas mortas por falta de um governo que nega a realidade. É uma catástrofe o que está acontecendo, sem falar de todo o resto, da questão da Amazônia, por exemplo. Não sou uma pessoa necessariamente de esquerda, mas sou uma pessoa sensata”, conclui.

Fotos: Gláucia Nogueira
Assistência de produção: Ioana Mello

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