Arte não tem bula

Trabalhos do artista carioca Hugo de Leoni misturam o lúdico e o sarcástico, as memórias, o inusitado e boas reflexões

Insta: Hugo de LeoniAlmacén Thebaldi Galeria

Esquece essa história de ressignificar as coisas, porque já deu, né? Pensa o seguinte: tem uma tralha danada espalhada pelo mundo, que muita gente nem vê, e que vai se acumulando por aí, por aqui, por todo canto. Mas tem também os que enxergam ali outras possibilidades. É o caso do artista Hugo de Leoni. Ele pode partir de um objeto, depois sair por aí catando madeira de caçamba, ferro e outros materiais que vão dando forma ao seu trabalho, geralmente bem-humorado como ele, mas sem forçar a amizade.

No começo da pandemia, por exemplo, que não foi fácil para ninguém, surgiram uma pipa feita em aço, um carretel (que eu chamo de manivela) e uma corda de pular, com o arame farpado substituindo a linha e a corda, respectivamente. Com dois filhos pequenos e o susto anunciado da reclusão domiciliar, de Leoni traduziu o que estava sentindo em arte. Passado o impacto inicial, quando começou a descobrir o lado bom de ficar em casa, surgiram outras pipas, dessa vez feitas com palha, concreto, restos de cobogós. Muitos dos elementos que ele usa, são íntimos do design de interiores, curso que fez mais por paixão e menos como foco de atuação. “A casa é uma casca e o que sempre me encantou é a exclusividade da arte dentro de cada uma delas.”

Aliás, até bem pouco tempo, o foco nem era a arte. O carioca Hugo de Leoni é publicitário, já trabalhou em várias agências em São Paulo, onde morou por 10 anos e hoje é o diretor de criação da própria agência, a Ploc, que também funciona na capital paulista, embora ele tenha retornado ao Rio, em 2016. O que mudou tudo foi o presente que a irmã lhe deu, quando foi estudar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV), com João Carlos Goldberg, Marcos Duarte e Bruno Miguel. Era 2018 e, a partir dali, não parou de enriquecer seu processo e suas técnicas.

Com o start no Parque Lage, de Leoni começou a colocar em prática o que lotava seus caderninhos de anotações. Tinha um sem número de rascunhos, mas nunca produzia as ideias que rafiava. E não faltou incentivo da mãe para que colocasse a mão na massa, nem do avô, escritor que também pintava.

A primeira escultura, Domingo na Paulista, em concreto e madeira, lembra um picolé enterrado pela metade no chão. Daí surgiu a série Palito Premiado e outras, que pode ter essa forma tão nossa conhecida, em madeira mesmo, estampando a frase “Vale um sorriso”, pode ser de madeira com palhinha trançada ou de madeira e espelho cobrindo toda a superfície. As alças de uma Havaianas pregadas em um retângulo de concreto e giz de cera, intitulada Bora Lá, é outra dessas peças que mostram que Hugo de Leoni não perde a verve divertida e sarcástica.

O ateliê é em casa mesmo, no Flamengo, e já conta com maquinário próprio, que ele vai adquirindo aos poucos. Faz tudo, não terceiriza, e vai até onde ele mesmo dá conta. Sua forma autodidata de se apropriar de materiais e de entender novos processos, passa pela habilidade que tem com as mãos e a intimidade antiga com a marcenaria. Lembranças, sentimentos, cenas do cotidiano, uma gíria, tudo pode virar arte para

Hugo de Leoni. Representado pela Almacén Thebaldi Galeria, seu trabalho foi parar em um dos ambientes da CASACOR Rio 2021 e repercutiu no encantamento causado no público e na crítica. “Aprendi que quanto menos eu falar do meu trabalho, mais ele alcança outras pessoas. Para mim, o processo não pode ser mais relevante do que o trabalho em si. Um trabalho de arte não vem com manual”, resume.


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO ARTISTA.

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