Um passeio pelo Barri Vell de Girona

Se as pedras falassem, contariam histórias incríveis e, embora não falem, relatam caladas as diferentes etapas da construção da cidade.

Insta: Dora Kelvin

Ao caminhar pelas ruas da parte antiga de Girona (Barri Vell) e se deter nos detalhes das suas paredes, suas muralhas, seu bairro judeu, ou suas igrejas e catedral é possível perceber a narração de mais de dois mil anos de história através da testemunha onipresente das pedras.

Documentos históricos indicam que Gerunda começou por volta do ano 76 aC como um posto avançado do Império Romano, embora alguns historiadores afirmem que os assentamentos que deram origem à antiga povoação foram anteriores a este período. Durante sua história, a cidade também viveu sob o domínio dos visigodos, a conquista dos árabes sarracenos e a reconquista pelos carolíngios, bem como, posteriormente, as invasões francesas.

As muralhas da cidade romana ainda se vislumbram de vez em quando na paisagem da cidade atual e as enormes rochas extraídas de uma pedreira não muito longe da vila podem ser vistas principalmente na entrada que dá acesso ao imenso pátio que precede a escada de uma robusta catedral, que demorou mais de 700 anos – dos séculos XI ao XVIII – para ser totalmente construída.

Bem aqui, no alvorecer do século 21, uma incrível máquina do tempo operou e essas mesmas escadas e pátio tornaram-se o cenário perfeito para a aclamada série Game of Thrones, que em sua sexta temporada apresentou a cena de James Lannister cavalgando as escadas do imponente edifício. Este conjunto histórico só precisou de alguns retoques digitais, que adicionou vistas do mar, inexistentes no local, para torná-lo parecido com a capital dos Sete Reinos. Varias outras cenas da série também foram gravadas na cidade, porém em outros locais.

Mas as muralhas contam histórias posteriores ao Império Romano, visto que sobre e para além delas foram construídas novas muralhas, alargando os limites da cidade e protegendo-a de ataques vindos principalmente do norte dada a proximidade de Girona com a fronteira francesa. Aqui, o leitor versado em história terá observado um salto nada mais, nada menos, de quase mil anos. Quem escreve esse texto, porém, não tem intenção de narrar a rica trajetória histórica desta cidade admirável, localizada 100 km ao norte da conhecida capital da Catalunya: Barcelona, e, sim, desvendar alguns recantos guardados pela pedra calcaria rica em fósseis de numulite, que foi uma das principais matérias-primas na construção da cidade.

Na Girona de hoje, pode-se caminhar por boa parte da muralha carolíngia erguida no século IX e restaurada nos anos 80 do século passado e assim desfrutar de uma vista privilegiada em cujas torres, que servem de mirante, é possível ter uma perspectiva de como a cidade cresceu, ladeada pelos quatro rios que a cruzam: Ter, Galligans e Guell, mas principalmente o rio Onyar, que demarcou o empório dos primeiros tempos e que hoje marca o limite da ‘velha’ e da ‘nova’ Girona. Este rio que enche a paisagem de encanto, com pontes que ligam as fachadas traseiras da zona antiga aos novos edifícios da moderna Girona. De lá, do alto da muralha,  dá para fazer um mapa mental com os resquícios do que foi um dos bairros judeus mais importantes da Europa, a cidade natal de um grande mestre da Cabala, o Rabino: Mosé ben Nahmán, mais conhecido como Nahmánides, ou Bonastruc ça Porta, em catalão.

O bairro judeu (Call Jueu) merece um passeio calmo e atencioso. É aconselhável se perder no labirinto de becos e ruelas e parar nos detalhes dos portais para observar as marcas dos antigos mezuzás, tradição judaica de colocar pergaminhos com dois versículos da Torá alojados em uma caixa ou receptáculo que é anexado ao lado direito da porta. Interesse-se pela história da perseguição e expulsão que ocorreu no ano de 1492, em que os judeus foram assediados pela inquisição espanhola e em inúmeros casos, forçados a abandonar às pressas suas casas e negócios. É curioso saber que até relativamente pouco tempo, ainda havia nesse bairro, ruas perdidas que foram emparedadas por seus proprietários entre o emaranhado de edifícios, na esperança de um dia regressarem e recuperarem suas moradas, mas que com o passar dos anos foram esquecidas e apenas recentemente ‘descobertas’ e novamente abertas.

Um passeio pela ‘Carrer de la Força’ (Rua da Força), eixo central do bairro judeu, revela uma encosta suave que atinge o lado oposto da porta da muralha que dá acesso ao pátio e às escadas da catedral. Neste caminho há duas paradas mais do que recomendadas: uma, no Museu da História dos Judeus e a outra, no Museu da História da Cidade. Com sorte, caso alguma das enormes portas dos imponentes edifícios que flanqueiam o ‘Carrer de la Força’ lado a lado estiver aberta, é possível entrever alguns dos belos pátios internos dessas casas, que também abrem suas portas para visitação pública a cada mês de maio (sem pandemias), na famosa exposição de flores ‘Girona temps de Flors’ (Girona época das Flores, em portugês) que povoa toda a cidade de Girona com instalações artísticas cujo tema central são as flores.

Seguindo a pé e, em boas condições físicas, subir, de dois em dois, os noventa degraus da imponente escadaria que dá acesso à Catedral de Santa Maria, a Catedral de Girona, é uma experiência e tanto. Porém, se as pernas não aguentarem o esforço, após a caminhada pelo bairro judeu e pelas muralhas, você pode aproximar-se da entrada por uma das ruelas adjacentes.

Ao percorrer toda a volta do edifício, dá para ver claramente o antigo campanário românico, que não deve ser confundido com o romano: o românico é um estilo artístico e arquitetônico predominante na Europa Ocidental, durante os séculos XI a XIII. Essa torre sineira é o testemunho das origens cristãs da catedral, embora, na verdade, seja muito posterior às suas origens iniciais, visto que as escavações e investigações arqueológicas indicam que provavelmente no local existiu um templo pagão na época romana. De novo as pedras, que nos sussurram inúmeras histórias.

A visita ao exterior da Catedral por si só já vale a pena, mas entrar e visitar todo o seu complexo pode ser surpreendente. Seu interior oferece uma nave gótica única (sem pilares), a mais ampla do mundo nesse estilo, superada apenas em largura pela nave única da Basílica de São Pedro, no Vaticano. O interior é despojado de grandes ornamentos, sem o estilo barroco a que estamos acostumados nas igrejas mais antigas que ainda existem no Brasil. A Catedral impressiona com sua austeridade silenciosa e cinza, coroada pelos grandes vitrais que deixam passar uma tênue luz, matizando a constante penumbra que nos transporta aos tempos medievais de condes e vassalos.

No recinto da Sé, vale uma visita ao antigo claustro românico, com o seu pátio quadrado adornado por elegantes arcos e capitéis. Por fim, no Museu Capitular, é necessário reservar algum tempo para contemplar com atenção a Tapeçaria da Criação (Tapiz de La Creación), uma impressionante obra de arte românica do século XI. Trata-se de uma obra de grandes dimensões, em cores intensas, com cenas da Criação; um bordado onde os fios acrescentados seguem a silhueta desenhada dos motivos e figuras, feito com a técnica chamada pintura a agulha, um primor muito bem conservado da arte medieval.

Girona também tem outras igrejas menores, mas nem por isso menos charmosas. A Basílica de San Feliu destaca-se no skyline do bairro antigo, coroando com sua elegante silhueta o cartão-postal mais típico da cidade: as casas coloridas que ladeiam a margem direita do rio Onyar, muitas delas assentadas nas pedras de uma das antigas muralhas da cidade.

O passeio por Girona pode terminar descendo a encosta de S. Feliu e atravessando o rio Onyar pela pitoresca ‘Puente de la Princesa, ou Pont d’en Goméz’, em direção à à ‘Plaça Independència’, a única praça com arcadas da cidade. Um lugar onde o novo se encontra com o antigo e onde vale desfrutar o merecido descanso em charmosas varandas de bares e restaurantes para todos os gostos e bolsos. Lá, há de tudo para aguçar o paladar: desde tapas (típicos tira-gostos espanhóis), vinhos e cervejas, até pratos típicos catalães, orientais ou italianos.

Informação prática sobre Girona:

Girona (Gerona em castellano) é uma cidade e município espanhol, capital da província homônima e da região de Gironés, na comunidade autônoma da Catalunha. Está localizado a 100 km ao norte de Barcelona e a menos de 50 km da fronteira francesa. De Barcelona, o acesso é muito cômodo e pode ser feito por estradas que vão devagar pelo litoral catalão ou rodovias rápidas, as autopistas; e por trens – com o trem de alta velocidade (AVE) leva-se apenas 45 minutos. De outras capitais europeias o acesso pode ser feito por autoestradas, trens e também por via aérea, pelo aeroporto Girona-Costa Brava. De Paris, chega-se à à cidade de AVE, em uma viagem de cinco horas, partindo da Gare du Lyon, no centro de Paris.

A cidade é cruzada pelos rios Ter, Güell, Galligants e Onyar, a uma altitude de 75m acima do nível do mar. O termo municipal, centro da zona urbana de Girona, tem uma população de 103.369 habitantes (INE, 2020). O clima é caracterizado por invernos frios e úmidos e verões quentes. A população universitária é de quase 14.000 alunos matriculados na Universidade de Girona. E o hospital de referência é o Hospital Josep Trueta. Atualmente, Girona é um pólo de treinamento de atletas da elite mundial do ciclismo e oferece inúmeras opções para quem pratica tanto montain bike como bicicleta de estrada.

* Dora Kelvin é meu pseudonimo literario. Me chamo Izabella Rohlfs,  nasci em Belo Horizonte. Sou médica ginecologista e doutora em Epidemiología e Saúde Pública. Esse ano faz 30 anos que moro na Catalunya, primeiro em Barcelona e nos últimos 25 anos em Girona. Cidade que conquistou totalmente meu coração mineiro.

Créditos

Capa – Parte de la muralha Carolingia com a Igreja de Sant Feliu e Catedral de Girona em segundo plano.

Fotos: Francesc Viñeta

PROGRAMA DO DIA

Ouça nossos podcasts para

Ouça nossas playlist em

LEIA MAIS

Sobre a mesa, o sonho

A experiência e as vivências de Ticha Ribeiro somam para que Ma Perle seja uma marca única de Table Couture

Realismo fantástico

Equilibrar razão e emoção em um ambiente encantador e também funcional? O projeto de Manoela Beneti é uma boa resposta