Sensibilidade regada com poesia

Murro e carinho: obra de Iago Gouvêa esmiúça nossa ambivalência ao unir pontas opostas dessas linhas emboladas em raro bordado

Insta: Iago GouvêaCelma Albuquerque Galeria de Arte

Quem olha para o Iago Gouvêa, mesmo que pela fotografia, pode conseguir enxergar uma ternura no olhar, nos gestos congelados na imagem. Quem conversa com ele, mesmo que pelo celular, também pode ter um sentimento semelhante ao prestar atenção nas pausas de sua fala, na busca pelo sentido das palavras escolhidas para se expressar, ao mesmo tempo em que o texto flui, enquanto ele conta sua história aos pedaços. “Não sei se está fazendo muito sentido o que estou falando”, ele diz do outro lado da linha. Tudo faz sentido, como tudo é intensamente sentido no trabalho desse artista, mineiro de Belo Horizonte, onde vive e trabalha.

Arte e ciência já cutucavam o menino que preferia brincar em casa em vez de ir para a rua com os amigos do bairro. Gostava de desenhar e de fazer experiências, como a que fez quando foi à farmácia comprar uma seringa para injetar não sei o quê em uma manga e depois observar. Por isso, a primeira escolha acadêmica foi o curso de Aquacultura, que forma profissionais com conhecimentos sobre toda a cadeia produtiva de organismos aquáticos. As aulas eram ministradas na Escola de Veterinária e em outras unidades da UFMG. Quando estava no Campus, era comum passar pela Escola de Belas Artes, prédio próximo ao seu, onde tomava um café e pegava alguns livros que achava interessante.

No meio do curso, ele já pegava mais livros lá do que na Veterinária e foi então que resolveu ajustar o leme e deixar que outros ventos mostrassem uma nova direção. Em 2014, Iago entrou na Escola Guignard – UEMG, já sabendo que seria um choque para a família. Nenhum parente era pintor, escultor, músico, ator ou exercia qualquer outra função ligada às artes. A resistência aconteceu, mas depois, o apoio também.

“Para mim é como se tudo aquilo fosse um mundo novo”, revela. O primeiro interesse foi pela escultura, substituído na sequência pelos desenhos em nanquim sobre papel, em que misturava figuras animais e humanas. Nada era racional. Iago usava a forma dos animais como algo relacionado ao simbólico e à expressão de seus sentimentos.

O desenho foi o início do processo, mas o artista começou a sentir falta de uma materialidade em seu trabalho. Jade Liz, a namorada, já bordava e com ela ele aprendeu a dominar linha e agulha. “Eu não abro mão do que estava fazendo e, ao mesmo tempo, já começo a pensar em outras produções e tudo vai acontecendo e tendo continuidade”, explica.

Por isso, aos bordados ele acrescentou um serrote com cabo quebrado, uma enxada enferrujada e outras ferramentas que herdou do avô e que estavam ali no ateliê, com todas as camadas de significados que já existiam em cada peça. Nascia a série Ambivalência: um acordo entre materiais discordantes. Na explicação dele, ‘são objetos que propõem desvelar a sensibilidade contida na dureza e amparar o repouso da severidade’.

Ambivalência continua em processo, enquanto uma espiral criativa leva o artista a experimentar novas propostas, seja em cerâmica ou em esculturas com outros materiais.

No momento, o foco está na cerâmica e o que elas trazem da pesquisa de Iago sobre as relações entre humanos e animais. Uma, específica, a que existe entre o homem e os ratos de laboratório, está na série In Vitro. ‘São experimentos em cerâmica de alta temperatura. Experimentos ficcionais bem-sucedidos, da representação dos resultados de experiências em laboratórios, não tão bem-sucedidas assim’, comenta em seu site. Delicadas em sua materialidade e nos símbolos que trazem, não se engane com essas obras. Observar cada peça é como sentir, de forma sensível e não sem um certo estranhamento, um soco bem dado na cara da humanidade.

Além da poesia presente em sua arte, Iago é também poeta das palavras. Entrar em seu site e ler seus poemas é uma grata surpresa. Sobre seu trabalho, ele acrescenta: “Durante minhas pesquisas, fiquei completamente encantado com um trecho do livro “Literatura e animalidade”, onde a autora Maria Esther Maciel escreve:
Se o animal é o estranho que nós, humanos, tentamos agarrar e que quase sempre nos escapa, ele também é o nosso duplo, o que está aqui, com sua presença inquietante e, por vezes, assustadora. E a poesia, por ser esse espaço de revelação da outridade, é também o lugar, por excelência, para que a animalidade se manifeste enquanto imagem e inscrição, ainda que provisórias.

“Penso a poesia e a arte exatamente como esse “espaço de revelação da outridade”, indo ainda além da questão da animalidade. Se através delas podemos olhar para uma outra consciência intangível à nossa consciência humana, não há canto escuro em nós que não possa ser clareado também dessa maneira. Somos seres ambivalentes em diversos aspectos, e ao regar a nossa sensibilidade com poesia, podemos transformar as duas pontas opostas dessas linhas emboladas em um bordado. Somos linhas bordadas em ferro.”

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