Se essa rua fosse minha

Arte contemporânea é o viés da intervenção sobre o Rio, de Isabela Prado, em projeto que ganha publicação em breve

Insta: Entre Rios e RuasIsabela Prado

Acendendo memórias

A gente já falou aqui – ver matéria abaixo – mas é sempre é bom lembrar de bons projetos, principalmente quando eles têm desdobramentos. Em 2018, aprovada na Lei Municipal de Incentivo à Cultura, a obra Sobre o Rio, da artista Isabela Prado, começou a existir para a população de BH. Isabela instalou 230 placas no perímetro da Avenida do Contorno, que indicam a presença, ali, mesmo que inviabilizada, de córregos canalizados que percorrem BH e que fazem parte da bacia do Ribeirão Arrudas: córrego do Leitão, Serra, Acaba-Mundo, Mendonça, Barro Preto e Afluente Serra.

Com esse trabalho Isabela fez um resgate do que é invisível para nós, permitindo que as pessoas, ao caminharem por esses locais, mergulhem, mesmo que por um instante, em uma memória apagada da cidade. “Sobre o Rio reinsere os córregos como elemento da paisagem da cidade. A partir do momento em que a presença dos córregos é identificada por meio das placas de sinalização, sua existência passa a ser algo natural, reconhecida por quem transita por BH”, comenta a artista.

Pois então, vamos aos desdobramentos: está no ar uma campanha de financiamento coletivo, que está sendo feita pela plataforma Evoé, para a produção de uma publicação impressa, bilíngue (português e inglês), de formato robusto, que vai mostrar os processos de criação, as reflexões e diferentes registros da obra “Sobre o Rio” O livro também vai contar com a participação luxuosa de autores especializados em áreas vinculadas ao projeto, com  textos inéditos de Michele Arroyo, Alessandro Borsagli, Josué Mattos, Roberto Luís Monte-Mór e Guilherme Wisnik, além de uma entrevista dos curadores Clarissa Diniz e Josué Mattos com a artista Isabela Prado. A meta da campanha é buscar apoiadores para a viabilizar a produção gráfica e impressão de uma tiragem de cuidadosos 1.000 exemplares. Esses apoiadores ainda vão ser presenteados com outras obras de Isabela e um modelo original em aço da placa do córrego “Acaba-Mundo”.

A matéria

Qual é a sua paisagem predileta? Tem rio, lago e montanha? Tem mar e praia de areia branca? Ao idealizar o que seria um cenário perfeito, para grande parte das pessoas, a presença da água é fundamental. Quem mora em grandes centros muitas vezes nem imagina como era o espaço urbano, antes do emaranhado de ruas e avenidas ou do amontoado de prédios e casas serem construídos.

Imagine, então, Belo Horizonte, cidade de geografia montanhosa, cujas ladeiras costumam causar espanto em quem vem do planalto central brasileiro, por exemplo, onde a lua nasce e o sol se põe sem entremeios, escorregando por uma extensa linha horizontal. Dá para imaginar que haviam rios e córregos serpenteando essas montanhas de outrora por toda parte? Onde foram parar essas águas? Sumiram? Foram desviados ou mesmo cobertas durante os mais de 100 anos da cidade.

Não é diferente em outras cidades brasileiras e também do mundo. Para chamar a atenção sobre o que foi apagado da paisagem da capital mineira e também da memória de quem nasceu ou vive nela, a artista visual Isabela Prado desenvolveu o projeto Entre Rios e Ruas, que tem um lado poético e também uma crítica necessária, e está em diversas plataformas artísticas. Uma delas, batizada Sobre o Rio, foi concretizada no início de 2020, com autorização da Subsecretaria de Planejamento Urbano.

O viés do Sobre o Rio é a arte contemporânea. “A arte está aí para isso. Através de uma ação sensível, provoca outros movimentos”, comenta Isabela, que instalou mais de duzentas placas para sinalizar a existência de córregos canalizados, mapeando vários pontos de interseção entre os rios e as ruas, por onde a população passa diariamente e nem imagina o que tem logo abaixo de seus pés. As placas estão dentro do perímetro da Avenida do Contorno, região central da cidade, planejada originalmente dentro dos limites dessa grande avenida circular.

“O trabalho não está assinado, foi feito para a sociedade. E quem o patrocinou também aceitou que não tivesse a logo da empresa estampada na placa, não faria sentido. Não é algo para ser espetacularizado. A palavra é muito importante”, reflete a artista. Para ela, esse projeto estabelece um diálogo com a cidade, por meio do afeto e da memória da paisagem urbana. E ganha dimensão social ao trazer à tona as relações estabelecidas com a dinâmica de ocupação e apropriação do espaço urbano e seus habitantes.

O aspecto interessante é a reação do público sobre o lugar velado. Isabela também destaca a importância de as pessoas acolherem esse trabalho como algo natural, que foi autorizado. “Eu poderia ter outras formas de atuar, mas o mais importante para mim, como atuo como artista, é essa infiltração, é conquistar o direto de existir ali”, explica.

Para realizar essa intervenção, bem como tudo o que está relacionado ao projeto Entre Rios e Ruas, a artista pesquisou dados e mapas disponibilizados pela Prefeitura de Belo Horizonte e, a partir daí, desenvolveu trabalhos em várias mídias, como desenhos, vídeos, instalações e performances.

A artista instalou as últimas placas e fotografou o processo de instalação em meados de março de 2020, dias antes da necessidade do isolamento social em decorrência da pandemia da Covid-19.

A ideia é que os registros façam parte de uma publicação que está sendo finalizada, com textos e colaborações de vários profissionais para campanha a ser lançada em meados deste ano. “Vai ser uma espécie de catarse, como o mesmo intuito, das pessoas poderem contribuir para que a publicação chegue principalmente nas escolas”, conclui.

CAPA: Isabela Prado e as placas da ação Sobre o Rio, dentro do projeto Entre Rios e Ruas. Foto: Aline Xavier

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