Realismo fantástico

Equilibrar razão e emoção em um ambiente encantador e também funcional? O projeto de Manoela Beneti é uma boa resposta

Insta: Manoela Beneti Arquitetura

A arquitetura e a arquitetura de interiores exigem conceitos e partidos que dão relevância ao projeto e permitem que sua execução alie algo mágico, mais ligado ao sentimento, ao funcional, que vai permitir que razão e emoção se equilibrem em uma sintonia fina.

Para a arquiteta Manoela Beneti todo projeto parte de uma ideia, algo que vai influenciar o conceito e as escolhas para cada ambiente. Muitas vezes, ela chega de surpresa, outras, vem de memórias que afloram sem pedir licença. Esse ambiente assinado por ela teve influências marcantes de terras e tempos distantes, de seus conhecimentos e cultura e da necessidade de oferecer bem estar, abrindo novas perspectivas fora do usual ou rotineiro.

Ele foi marcantemente inspirado nos Gabinetes de Curiosidades, espaços que surgiram por volta do período do Renascimento, na Europa, e precederam os museus modernos. Eles armazenavam e exibiam uma grande variedade de objetos e artefatos, grande parte adquirida nas navegações ao Oriente, com uma inclinação especial para o raro, o eclético e o esotérico.

A inspiração foi quase uma licença poética para transpor para o ambiente não exatamente a variedade e riqueza de objetos que um Gabinete de Curiosidades abrigava, mas sim para mostrar a dimensão da importância da arte e da natureza no cotidiano, como forma de melhorar a vida das pessoas. Manoela misturou obras de arte contemporâneas com fragmentos barrocos e utilizou peças e mobiliário de design assinado junto a outras de época.

“Eu quis criar encantamento que pudesse deslocar as pessoas do cotidiano caótico e cinza”, comenta. A arquiteta chegou onde queria sem medo das misturas, mas procurando equilíbrio e harmonia entre as peças. E, para definitivamente deslocar o usuário e convidá-lo para uma experiência única, ela se valeu de uma inteligente combinação de cores, transparências e contrapontos. Usou, por exemplo a predominância de tons relacionados ao pôr do sol, com reforço maior na coletânea de tapetes rosados sobrepostos e nas paredes pintadas na mesma paleta.

É dela a mesa dividida, com um lado prata e outro dourado em latão, com uma trava preta que separa as duas partes, criada dentro do conceito lacaniano para cria-la. Ela está acompanhada do mobiliário assinado por Lina Bo Bardi, Sérgio Rodrigues e Jorge Zalszupin.

“A mesa representa esse lado dual, uma dimensão que todos nós, seres humanos, carregamos”, explica. Em contraste com o conjunto, o teto em concreto aparente, bem anos 1970 e ao mesmo tempo bastante atual, reforça essa dualidade. O resultado? Para muitos, ao simplesmente ver as imagens, fica a vontade de morar ali, ou pelo menos ter um ambiente próximo ao que Manoela propõe. Fica, no mínimo, a vontade de conhecer a personalidade de quem convive com tantas sutilezas.

FOTOS: Jomar Bragança

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