Processo infindável

No próximo sábado, galeria Murilo Castro, em Belo Horizonte, abre a exposição Identidade e Não Identidade, do artista Camille Kachani.

Insta: CAMILLE KACHANIGALERIA MURILO CASTRO

Entre referências, memórias e afetos que não cabem em um único idioma, a obra de Camille Kachani parece emergir de situações da natureza. Nascido no Líbano de pais sírios refugiados que migraram para o Brasil na década de 1970, Kachani tem sua vida atravessada pelos três grandes monoteísmos do mundo contemporâneo: islâmico, judaico e cristão. A proximidade do artista a crenças gestadas a partir de uma mesma matriz – que muitas vezes se opõem – se traduz na recusa de adesão a cada uma delas, permitindo-o citá-las como reminiscências em constante atualização. Paradoxalmente, é essa mesma recusa que leva o artista a abordar, ainda que de maneira involuntária, a noção de pertencimento em seus trabalhos.

À escrita – elemento primordial em muitas de suas composições – aderem raízes nem sempre em busca de solo. Numa alusão à matéria orgânica que jamais será imóvel, elas apontam para a inevitável passagem do tempo. Essa continuidade vital e muitas vezes imperceptível remete à forma como Kachani entende a sua própria prática artística. “Trata-se, antes, de uma obra em processo infindável”, afirma.

Portadoras de histórias, cada uma das imagens evocadas pelas obras apresentadas nessa exposição nos convida a navegar por uma biografia. “São elementos de dentro e de fora”, explica Kachani ao apontar para as porcelanas e granadas armazenadas em um de seus gabinetes. Mas o que seria esse “dentro e fora”? São vestígios de um Líbano prestes a entrar em uma das mais longas guerras civis da história (1975 – 1990) nos lembrando que, assim como uma xícara de chá, armas e escombros também eram parte da rotina de seus habitantes. A despeito da guerra, continua-se amando, festejando; continuam, enfim, as atividades mais prosaicas da vida.

Em meio a dualidades que não se excluem e nem se opõem, o artista nos coloca face à uma série de conexões improváveis. Talvez essa seja uma maneira de lembrar que nossa própria narrativa também carrega filiações identitárias com os quais nos relacionamos, mas sequer sabíamos recusar.– (recorte do texto de Sabrina Moura)

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELA GALERIA MURILO CASTRO

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