Memphis

40 anos depois, movimento que revolucionou o jeito de ver e pensar o design continua a influenciar a estética cotidiana

Insta: Consulado da Italia em BHCasacor Minas

Entre as décadas de 1960 e 1980 a Itália viveu um período de turbulência sócio-política batizado de Anos de Chumbo, marcado por uma onda de atos terroristas. Foi o arrefecimento desse momento que permitiu uma época de extrema criatividade, quando marcas como Versace e Armani floresciam e o design começava a discutir sobre o destino da burguesia. Essa leitura, feita por um dos criadores do estilo Memphis, Marco Zanini, que hoje mora no Brasil, “com vista para o Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro”, como ele faz questão de frisar, explica um pouco como foi o início do Memphis, que chegou quebrando os paradigmas estéticos que ordenavam o design até então.

“Era um grupo de pessoas muito diferentes, com a mentes abertas, de várias nacionalidades. Todos viajavam muito e colocaram nesse projeto o que tinham visto pelo mundo”, comenta Zanini. As influências podiam vir da Índia, das cores dos cemitérios da Guatemala, que fazem das sepulturas pequenas obras de arte, da tv japonesa, dos laminados plásticos dos bares de periferia de Milão. Um caldeirão que pretendia fazer uma reflexão sobre a relação da sociedade com o planeta. Fez mais que isso. Na noite de 18 de setembro de 1981, um grupo de designers e arquitetos defendido por Ettore Sottsass virou de para baixo a doutrina do “ornamento é crime” promulgada pelo arquiteto austríaco Adolf Loos, no início do século XX. 

A Galeria Arc’74 em Milão apresentou uma coleção de móveis, lâmpadas e vários objetos que exibiam cores exultantes e formas caprichosas e irreverentes. Esses “artefatos domésticos” pareciam varrer e até zombar dos códigos funcionais e estéticos que até então governavam o design internacional. Além de Marco Zanini, Michele De Lucchi, Martine Bedin, Peter Shire, Nathalie du Pasquier, Mateo Thun, George J. Sowden e Aldo Cibic foram os encarregados de criar a primeira coleção e a fotografia de todos juntos no anel da cama Masanori se tornou a mais imagem icônica do grupo( foto capa desta matéria). A memphismanía estava prestes a explodir em todo o mundo.

Um ano após a apresentação milanesa, no outono de 1982, o grupo e seus desenhos desembarcam em Nova York. Uma futura editora de moda, Anna Wintour escreveu: Com sua primeira coleção, eles conseguiram uma síntese alegre de referências históricas e do rock and roll.” O estilo Memphis não deixou ninguém indiferente. Nunca antes acontecera algo assim com uma coleção de móveis e objetos recebidos como se se tratasse de um fenômeno musical ou cinematográfico.

A mensagem era provocante: a mobília não precisava mais ser apenas funcional. O objeto era a estrela. Termos como insolência, jogo, diversão, sensualidade, mau gosto, fazem parte de seu DNA. O surgimento de Memphis na grande vitrine do design não aconteceu sem críticas. As vozes mais ásperas apontaram isso como uma piada passageira. Muitos o censuraram por esta “celebração do mau gosto” que parecia honrar suas criações, repleta de cores berrantes e formas impossíveis e provocantes que pareciam desafiar a lei da gravidade. A estante Carlton de Ettore Sottsass, uma das peças totêmicas do grupo, exibia formas mais decorativas do que funcionais. Há quem considerasse o estilo como desrespeitoso, já que, efetivamente ele abalou todos os alicerces do “bom design” que estavam sendo colocado em prática naquela época.

REVERBERAÇÕES

Mesmo assim, a despeito das críticas, a estética Memphis reverberou e reverbera até os dias de hoje em outras áreas, como o design gráfico, a moda ou o design de interiores. As cores espalhafatosas, formas atípicas, referências ao Art Déco e à própria história da arte, tudo colaborava para uma reação, jamais para a indiferença.

A certa altura do vídeo gravado recentemente, uma produção do Consulado da Itália em Belo Horizonte que escolheu o Memphis como forma de homenagear o dia oito de julho, data que comemora o Dia Internacional do Design Italiano, Marco Zanini revela detalhes que a história não costuma mostrar. É o caso de Karl Lagerfeld, o homem à frente da Chanel, que estava presente na primeira exposição do Memphis em Milão e que arrematou todas as peças.

Video gentilmente cedido pelo Consulado da Itália em Belo horizonte. Estúdio NY19

As fotos do apartamento de Lagerfeld em Monte Carlo divulgadas na internet, mostra seu apreço pelo estilo, com todos os objetos da exposição em evidência. Zanini conta que anos mais tarde, o kaiser da Chanel resolveu vender tudo e ele foi, inclusive, um dos compradores de algumas peças icônicas e originais, reavendo o que fazia parte do acervo inicial.

O movimento Memphis se destoou dos dogmas funcionalistas e aderiu à pluralidade de elementos estéticos como a cor, formas e os efeitos de superfície, através do discurso libertador de priorizar a arte, não só para meios práticos funcionais, mas para atribuir valor estético e emocional ao design. Com tantas referências fantásticas, até hoje, designers fazem adaptações ao estilo, introduzindo novas cores, geometrias ou padrões para criar interações contemporâneas. Passada a efervescência inicial, o Memphis passou a ser usado como inspiração e ferramenta de design, apesar de ter sido criado como uma filosofia e uma maneira de trabalhar.

Em 2011-2012, Christian Dior deixou claro a referência do movimento em sua coleção de alta costura de outono-inverno. As influências puderam ser vistas nas saias em camadas de organza bordadas em negrito cobertas com pecinhas brilhantes em forma de cubo. Ettore Sottsass também estava presente no show que, como o movimento original, dividiu as opiniões.

O estilo continua a inspirar. Pode ser percebido no trabalho do diretor criativo, cenógrafo e consultor de cores Michel Lott, na recente campanha para a Melissa, com direção de arte de Mariel Dodd e Ana Carolina Resende e em muitas outras manifestações. É o caso também da marca mineira de design de mobiliário e peças para a casa, a Cultivado em Casa, que diz abertamente beber na fonte do estilo, que está implícito nas formas e cores que apresenta em seu trabalho. Mesmo com a separação do grupo em 1988, o movimento Memphis acabou se transformando em uma das maiores expressões da Cultura pop.

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