Incomum e lindo

Possibilidades permitidas por um apartamento da década de 1960, em estilo déco, somam à originalidade do trabalho dos arquitetos Sarah James e Felipe Soares, em projeto que surpreende.

Insta: Sarah JamesFelipe Soares

Branco. Porque no início existia o branco. Ele captura a luz, ilumina o rosto e realça a beleza. Branco, porque é a cor da transparência absoluta e da transcendência.

Esse trecho faz parte do clássico “As cores de Chanel”, vídeo de 2014. Foi lembrado aqui, porque esse apartamento já teve, até bem pouco tempo, paredes e teto brancos. Eis que o projeto assinado pelos arquitetos Sarah James e Felipe Soares alterou essa rota e ofereceu outras possibilidades de cores que transcendem humores, surpreendem e, sim, encantam.

A proposta era, inicialmente, reformar as áreas molhadas e o começo dessa história se deu quando o novo lavabo, pronto, foi todo pintado de verde. Ganhou um ar cenográfico e o resultado empolgou os moradores, um casal nada convencional, com uma rotina diária na qual ele vai dormir às 4h da manhã, mesma hora em que ela acorda.

A cor avançou pelas paredes. Não mais o verde do lavabo, mas um azul que não chega ao marinho e, sugestivamente, é chamado Azul da Bohêmia. O inusitado veio na sequência, já que, das paredes, o teto também ganhou o mesmo tom, algo que poderia ser complicado em uma construção tradicional.

Não é o caso desse apartamento, situado em um prédio em estilo déco, dos anos 1960, onde paredes e teto não formam um ângulo de 90 graus, mas se juntam em curva. Além de criar um ambiente extremamente acolhedor, a cor permitiu ainda comportamentos noturnos e diurnos que, obviamente, se adequam perfeitamente aos hábitos dos moradores. As cortinas em veludo verde, tanto na sala, como no jantar, reforçam essa pegada, permitindo transformar esses espaços, ora abertas, ora fechadas, em noite ou dia, ao bel prazer de quem vive aqui.

O azul também está nas portas, exceto a de entrada, dupla, em preto. Preto, que sempre evidencia o essencial. Estamos na sala, sem tv, diga-se de passagem, um lugar pensado para ouvir música, de preferência da coleção de vinis do casal. Um ambiente com luz indireta, uma chaise, um sofá e o mobiliário –  boa parte da década de 1950, como em todo o apartamento – colocado de forma orgânica, como as obras de arte. Ah, as obras de arte. Depois que o espaço ganhou cor, parecem ter sido ressignificadas, como foi percebido, por exemplo, na obra da artista Jade Marra, que tem uma mulher de perfil e outra de frente, que fica nesse ambiente. As outras obras, todas com localização escolhida minuciosamente pelos arquitetos, não seguiram um padrão. A aposta foi no inusitado.

Integrado à sala, o lavabo –  aquele lá do começo – é um caso à parte. Além da obra de Efe Godoy, que se chama “Coisas que se apaixonam por coisas” (no caso uma cadeirinha que se apaixonou por um vaso de planta para se transformarem em algo indissociável), a luz dramática, dois pontinhos no teto com foco na cuba, foi um recurso sob medida que deixa qualquer um encantado.

O jantar é outro “acontecimento”, com mesa Saarinen com tampo em mármore carrara, as cênicas cortinas e a luz que dá um clima dark, apenas um ponto, um pendente em cima da mesa. Como diz a arquiteta Sarah James, é como se você estivesse entrando em um livro, ou em uma capa de disco, como se você fosse transportado para outro lugar.

No quarto do casal, integrado ao closet, mais surpresas: a cabeceira em linho rosê foi feita exatamente na medida da janela que está logo atrás, o que dá ideia de que essa janela também faz parte da cabeceira. Nesse ambiente, duas obras de Isaura Penna, também em tons de verde, comungam com o tom predominante do espaço, onde a cama também ganhou roupa de cama nos mesmos tons.

O projeto dos arquitetos permitiu ainda que o banheiro dobrasse de tamanho, ganhando uma janela – que antes não existia – uma banheira de granitina, chuveiro de teto e uma grande bancada em supernano, material sintético branco e piso em ladrilho hidráulico preto.

Parece filme, cena de livro, parte de uma música. Mas é real. E o melhor de tudo: ficou a cara dos proprietários.



Crédito das fotos: Jomar Bragança

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