ATELIÊ ABERTO
Entre o transitório e o eterno

Casa ateliê de Renato Morcatti revela, em esboços e obras concluídas, que a arte está onde o artista se encontra

Insta: Renato MorcattiGaleria Periscópio

Quando saí da avenida Cristiano Machado e entrei à direita para chegar ao bairro Pirajá me veio em mente uma frase boba, algo como “nossa, como Belo Horizonte é grande!” Pensei verbaliza-la, mas achei tão clichê que me recolhi ao silêncio no banco de trás, enquanto o motorista do Uber me conduzia ao endereço pedido. Pouco depois, chegamos a uma encruzilhada, algo comum na capital mineira com suas esquinas múltiplas onde os carros seguem todas as direções. Era ali. Mas, “ali” era um sacolão. Saltei do carro à procura do número indicado, perguntei numa lojinha ao lado: “Você sabe onde é a casa do Renato?”  Entre as tantas portas do comércio que movimenta a região, uma era a que eu procurava.

Não era exatamente uma porta, mas um portão que se abria para uma escada em aclive. Renato veio me receber e, ao chegarmos no topo dos degraus, outra porta, aberta, fornecia o primeiro impacto após a subida. Parte de seus mais recentes trabalhos estavam ali e por ali ficamos um tempo. Eu, a visitante nada incidental, já que marcamos hora e dia para nos encontrarmos e Renato, que foi logo me apresentando sua obra feita durante a pandemia, talvez inspirada pelo livro Metamorfose, de Kafka –  que ele releu logo no início da imposição de distanciamento social –  mas, certamente um exercício de eterno retorno à própria história, que vem sendo passada a limpo e novamente repassada a cada trabalho.

Não precisei fazer muitas perguntas. Renato não tem trava na língua para falar do que faz. Comenta sobre o processo, desenvolve ideias, ao mesmo tempo em que me leva a percorrer cada detalhe com o olhar, enquanto exercito a escuta e a observação para tentar não perder uma vírgula, um traço, um recorte ou dobra do que ele me mostra.

Embora diverso do trabalho anterior, principalmente o que foi produzido em cerâmica, este de agora, batizado de Guias, segue a mesma pulsão do artista. A diferença é que o que antes estava embutido em metáforas visuais, agora surge de forma escancarada, mesmo tendo como suporte a contínua transferência de significado de uma imagem por outra.

Ele comenta que as Guias vieram para abrir feridas ou para curar instigações internas. Realizado em algodão 100%, carvão, tinta à óleo e acrílica, o tecido foi alvejado, picotado, rasgado, engomado e impresso para dar forma ao resultado final, em que o acúmulo e a repetição criam uma narrativa para uma figura recorrente em todas as peças/ estandartes conformados como uma casa. A figura, nomeada de A Menina pelo artista, foi revelada nos rastros e manchas do processo de um outro trabalho. O artista a enxergou, mas percebeu que ela não tinha pulsos, nem mãos, e que ali havia uma questão do acolhimento ou a falta dele, algo que viveu na pele, na década de 1990, quando se vestia de Drag. Por isso, em cada estandarte A Menina surge ora com o coração, ora com a planta baixa da casa no lugar das mãos e, de alguma forma, ela chora por isso.

Era só o começo da jornada por uma casa com planta circular, quase um labirinto, onde Renato morou até os 10 anos e há cerca de seis anos voltou a viver e trabalhar. Uma volta ao útero, como gosta de dizer. A casa vazia, onde o silêncio ecoava logo no primeiro mês de seu retorno, recobrou alguns móveis, souvenirs e outros objetos que faziam parte de sua história afetiva quando o artista decidiu que estava na hora de todo essa matéria povoada de lembranças voltar para casa.

Como a lei do eterno retorno insiste em armar surpresas, durante a pandemia Renato sentiu necessidade de jogar luz em um pedaço importante de sua vida, como a repetir um mantra: está na hora de voltar para casa. E foi assim que A Menina chegou. Como chegarão outros, outras, em cada expressão ou sentimento que ele materializar. O fazer manual de cada detalhe de sua arte é também a forma artesanal com que Renato desenha a própria vida.

Desenhista, gravador e escultor, Renato Morcatti vive e trabalha no bairro Pirajá, em Belo Horizonte – MG. A casa/ateliê onde mora é, ao mesmo tempo, o centro e o abismo onde cabe o repertório que transita entre o artista e sua memória familiar. Onde objetos ganham novas funções, viram obra como a própria construção, se consome e se reinventa entre o transitório e o eterno.

Fotos: Álvaro FráguasVicente de Mello

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