Desvendando sutilezas

Projeto do arquiteto Leandro Britto utiliza pau-a-pique e estrutura metálica em casa que valoriza a tradição, a cultura e sustentabilidade

Insta: Leandro Brito

Que amplitude te seduz?  Uma casa com área interna enorme, com salas integradas, gigantescas e quartos que resolveriam uma moradia inteira? Um pequeno ambiente que se alia à paisagem dando outras nuances à necessidade de espaço?

Para o arquiteto Leandro Britto, a segunda opção é a que cabe na medida de seus projetos de vida e que resultaram em um projeto profissional que mostra como essa possibilidade pode ser prazerosa. Até meados do ano passado, Britto morava em um apartamento de 20m² em Paris, onde fez mestrado em arquitetura e por lá ficou um pouco mais, trabalhando com cenografia.

Seu micromundo era inundado de verde, com muitas plantas, inclusive, de sua mãe, que levou daqui. A pandemia, entretanto, alterou sua percepção do lugar em que morava. O confinamento, o trabalho de home-office e, ainda por cima com um teste positivo para covid, fizeram com que a paisagem da janela, de frente para outras fachadas começou a incomodá-lo.

No mês de abril, o desejo de ampliar os horizontes aumentou, embora estivesse muito mais ligado ao contemplativo. A solução encontrada foi a de retornar ao Brasil e construir em um terreno, herança de família que, até então, costumava ser alugado para pasto. “Queria um lugar onde eu pudesse contemplar a paisagem. Não preciso de muito espaço interno”, comenta Britto .

E assim, foi surgindo o projeto dessa casa, com quarto e sala conjugados, cozinha e banheiro. A recepção foi transmutada para o exterior, onde fica o estar: a varanda que rodeia a casa ganhou redes em toda a sua extensão, para que a sua ocupação aconteça de acordo com a insolação e a necessidade dos convidados.

Implantada em um eixo norte/sul, com o telhado totalmente exposto ao sol para o total aproveitamento dos painéis solares, a casa tem sistema on grid, que alimenta a rede elétrica com energia solar. Sua posição faz com que ela receba o sol da manhã na fachada frontal, à leste e, à oeste, onde fica a melhor vista, o por do sol. A relação da construção com a natureza está intimamente ligada a essa questão. “Aqui o sol não é brincadeira, então, tive que desenvolver vários sistemas de proteção”, explica o arquiteto.

Na fachada frontal, ele utilizou o cobogó para filtrar a luz, mas não optou por dar continuidade ao elemento, para evitar a repetição. Por isso, na fachada oeste ele desenvolveu um sistema de cortinas exteriores, mais utilizadas no verão, já que, no inverno, a luz da tarde aquece gostosamente a casa. “Como se trata do lugar onde se vê a paisagem mais bonita, não queria impedi-la com o cobogó”, comenta.

E como não queria que fosse uma casa qualquer, o arquiteto a planejou para que ela fosse, realmente, do lugar onde ela é. Para isso, primeiro estudou a região e teve como auxílio o trabalho de uma historiadora que já havia pesquisado a cidade onde ela está instalada, Itatiaiuçu. Descobriu que ali já fora passagem de bandeirantes e que a região tinha uma forte relação com a olaria, tanto nas cidades próximas, como lá mesmo, onde os habitantes já tinham história com a produção de tijolos e dos próprios cobogós.

Outra questão onipresente era a terra vermelha, que acabou por influenciar a paleta de cores em tons terrosos e, por fim, o fato de que muitos dos habitantes já haviam morado em uma casa de pau-a-pique, um elemento tradicional que foi incorporado à arquitetura da casa.

Outra questão decisiva foi o fato de que a casa está localizada ao fundo da Serra de Igarapé, onde a mineração é ainda mais intensa pela presença de empresas estrangeiras que tem acelerado o consumo da montanha, alterando a paisagem. Perturbou o arquiteto pensar que, justo ali, raras eram as construções com a presença da estrutura metálica. “Achei isso uma contradição e quis enfrenta-la. Já que estou vendo minha paisagem desaparecer, quero ter o fruto dessa destruição como matéria prima para a minha casa”, lembra Britto.

Uniu assim, a arquitetura vernacular do pau-a-pique, a estrutura metálica pouco explorada pela construção civil local e a questão da terra vermelha, que ditou a paleta de cores. “Eis outra contradição, já que o hábito aqui é construir casas branquinhas, que acabam “sujas” de terra. Se já fossem vermelhas, não haveria esse problema”.

Em relação ao sistema construtivo, a casa é apoiada em seis pilares, feitos dentro de manilhas de cerâmica. “Não queria o concreto exposto, queria que o aspecto cru viesse de materiais naturais como a terra e a palha, algo mais delicado. Não queria que remetesse a nada da tendência brutalista que a minha geração utiliza tanto”, explica.

A casa nasce em um platô, circundada pela varanda apoiada em mãos francesas e dali saem as estruturas da parede que são painéis metálicos para encaixar a estrutura de bambu do pau-a-pique. Em seguida, há uma faixa de vidro, exatamente para descolar um pouco o telhado. Por sinal, o telhado borboleta com as águas invertidas dá um efeito pavão na casa. Quando se inverte as águas, de um lado a vista é ampliada e, do outro, a casa toma uma postura mais elegante e vistosa.

O fato de ter as águas invertidas gerou também a calha como um elemento: quando chove, a água cai em frente à cozinha e faz uma cascatinha. “Eu usei muito da simetria na casa, mas com funções distintas. Os elementos em simetria dão uma coisa orgânica, como um corpo de um inseto que tem a simetria natural da geometria orgânica e eu sinto isso aqui, o que me dá muito prazer”, afirma.

Como a casa está no meio de um pasto, para resolver a questão da energia elétrica que dificilmente chegaria ao terreno da construção, ela foi fabricada em um galpão próximo e depois transportada para ser montada no local. “Essa questão da pré-fabricação da casa se deu de uma maneira orgânica também, as decisões foram feitas junto aos serralheiros sobre quais elementos deveriam chegar inteiros no terreno, para gerar o menor trabalho in loco. Isso ajudou muito porque foi possível uma qualidade de construção maravilhosa, visto as condições do lugar onde a casa foi montada”, explica

O fato de se valer de um mínimo de alvenaria que, no caso, está nos pilares da base e na parede do cobogó também acelerou o processo de produção. Já o pau-a-pique necessitou de cinco dias, por ser um elemento trabalhoso, mas que era essencial para que a obra resgatasse algo de vernacular da região e, em termos de conforto térmico foi de grande valia.

Faz parte da harmonia entre materiais, a escolha do chão em madeira avermelhada, que comunga com a paleta da casa. Sob ele há uma uma manta térmica de isolamento de 12o C, além do telhado, em telha sanduíche, que também amplia o isolamento.

Por fim, um detalhe não menos importante: a construção não afeta o terreno: apenas onde ela o toca. Em seu entorno, ele permanece instacto, em respeito à colina onde a casa está instalada.

Fotos gentilmente cedidas pelo arquiteto.

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