De dentro para fora

Apartamento em que Mariana Sucupira e família moram propõe projetar a serena vida interior da stylist em todos os detalhes

Insta: MARIANA SUCUPIRA

Há estímulos visuais que chamam o nosso olhar para os detalhes, as obras de arte, os móveis, tudo. Há, sobretudo, uma serenidade, como se fosse um bafejo de paz, assim que você abre a porta desse apartamento. A combinação improvável entre o que é a excitação que um estímulo causa e a áurea de tranquilidade dos ambientes traduz bem quem mora aqui. A stylist Mariana Sucupira, o empresário Bruno Golgher e os dois filhos parecem ter escolhido a dedo não só o que compõe salas, quartos e biblioteca, mas até mesmo a vizinhança. É que o prédio onde moram está a poucos metros da icônica Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, conhecida pelo rico acervo arquitetônico que a emoldura, culminando, de um lado, com o palácio da Liberdade, construído em 1897, palco de importantes acontecimentos da história de Minas Gerais.

Essa matéria é um desdobramento do projeto O Simbionte, da fotógrafa Leca Novo, apresentado em uma instalação/exposição, na CASACOR Minas em 2021 , que partiu do tema da restrição social imposta pela pandemia e enfocou o morar de diferentes personalidades de Belo Horizonte.

Então, é isso: você abre a porta e parece que um abraço invisível roça seus braços. Não é força de expressão. É real. A cada passo, a sensação é que o ar e a luz são leves, talvez com a mesma leveza que Mariana transmite, com seu caminhar suave, sua voz doce. “Acho que a casa é uma extensão do que você é e é muito legal poder projetar nossa vida interior naquilo que nos cerca.  Eu adoro estímulos visuais, meu trabalho é esse, e eu tento construir a casa dessa maneira”, ela comenta. A fala de Mariana é importante, principalmente em um momento em que o lugar que chamamos de lar ganha mais e mais evidência, não só com a experiência de uma pandemia, mas com o noticiário de uma guerra que, mesmo em terras distantes, afeta todo o planeta.

De repente, Mariana fala algo que acho que muita gente não costuma pensar e que é tão marcante ouvir. Ela diz que não encara a casa como um problema a ser resolvido ou uma coisa a ser feita, tipo construiu e acabou. Talvez esse detalhe mude tudo. É que esse apartamento é vivo, quadros às vezes ficam no chão e, sem pressa, se encaixam no lugar que parecia ser reservado a eles. Ou então, mudam de lugar, assim como os objetos, de tempos em tempos. “Estou sempre pensando em um cantinho, um espaço, um objeto. Adoro colecionar coisas. Não gosto de muita coisa, tudo junto, mas acho bom colecionar coisas que são especiais, acho que tem a ver com o jeito que sou.

O apartamento também traduz experiências anteriores de Mariana, que sempre morou em casa, próxima à natureza, em um condomínio, como ela mesma diz, ‘quando era muito diferente morar em condomínios do que isso representa hoje’.

Na mudança para o apartamento, ela conta que as intervenções estruturais foram quase nada. Apenas o lavabo, que encontrou coberto de fórmica, e que quis trazer um pouco de sua história original com os azulejos antigos. Na sala, os móveis que incluem peças importantes de Sérgio Rodrigues e Jorge Zalszupin, herança de família, de uma época em que as pessoas ainda não conheciam o que significava aquele acervo, e nos espólios familiares costumavam desprezá-los, mas que receberam de Mariana o olhar certeiro. Detalhe: muito mais pelo lado afetivo, pelas formas e estética, do que por terem uma assinatura. Alguns, até pouco tempo, nem ela sabia que tinham a tal assinatura. É que apesar de trabalhar com moda, ela vai na contramão das pessoas que hoje desejam muito ter uma icônica poltrona Mole em casa, pelo que ela representa de status e não pelo valor cultural da peça.

O imponente piano de cauda do ambiente também tem história. Veio do Café com Letras, que o marido Bruno Golger é proprietário, famoso por jam sessions de jazz memoráveis e pelo Savassi Festival, que Belo Horizonte ama. Impressionam ainda as obras de arte, como o banco de azulejos, de Adriana Varejão (ela avisa: foi comprado quando o museu Inhotim nem existia), uma tela com os dois filhos ainda pequenos, de Leonora Weissmann, outra de Desali e uma obra de Suzana Bastos, que ocupa parte da parede. No acervo, destacam-se Nuno Ramos, Valtércio Caldas e Antônio Dias. “Tem obras que vão permanecer no tempo, e outras que são o retrato de uma época. Mas nenhuma arte está aqui para decorar. Ela pode ficar encostada por meses na parede até eu descobrir onde vai ficar. Não tenho pressa. Tudo bem que a vida é imprevisível e tudo pode acontecer, mas eu não tenho planos de sair daqui. Casa é curtir”, ensina.

Mariana também gosta de trocar ideia com o arquiteto Alexandre Rousset e com a marchand Flávia Albuquerque, da Celma Albuquerque Galeria de Arte. “Os dois são pessoas que adoro e adoro o olhar deles. Quando me mudei, a Flávia me emprestou o olhar e a experiência dela e o Alex é quem assina a reforma do banheiro e do closet e a estante do escritório, além da visão que tem e que me auxilia muito.”

Diferente de outros apartamentos que integram todos os ambientes, Mariana comenta que preferiu deixar como era no original. Por isso, a ampla sala de jantar está intacta, inclusive com alguns móveis deixados pela antiga proprietária. O toque contemporâneo fica por conta da luminária Zettel’s de Ingo Maurer, com finas estruturas de metal que além do suporte para lâmpadas traz espaço para serem penduradas inúmeras folhas de papel japonês. Translúcidas, as folhas servem como difusores da luz, suavizando e espalhando a iluminação por todo o espaço. Chama atenção também o verde que compõe um jardim de vasos de plantas maiores, próximos à janela. “Acho a coisa mais deprimente morar numa caixa branca. Sempre quis verdejar a casa e aí onde elas estão, se dão bem, embora eu costume fazer um rodízio quando necessário”, comenta.

Nos quartos, a delicadeza de papéis de parede que parecem uma pintura e luminárias contemporâneas que foram garimpadas por Mariana. Durante um bom tempo, ela ia com frequência trabalhar em Nova York e aproveitava para descobrir esses detalhes, escolhendo com a atenção e a calma de sempre. Há ainda várias opalinas, algumas compradas em leilão, outras pela internet e também com Antônio Carlos Figueiredo, do Museu do Cotidiano.

No fim da experiência de conhecer esse apartamento ficam vários sentimentos: acolhimento, serenidade, equilíbrio, beleza, calma e muita poesia em todos os espaços. Um lar na sua mais comovente construção, que aliás, para seus moradores, nunca está pronto. Está em movimento e tão vivo como eles.

FOTOS: LECA NOVO

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