Cuidado! Frágil.

[Fragilismo como visão de mundo]

Não deixe cair no vácuo
a reciclada vida,
o frágil e o perecível

Nelson Cruz

Abordar criação e consumo em uma sociedade pós-industrial é uma tarefa no mínimo delicada, pois as mudanças pautadas ora pela indústria ora por transformações socioculturais fomentam e intensificam a eterna busca por inovações. Diante dessa óbvia constatação, o exercício de analisar e investigar tendências comportamentais torna-se complexo.

Para muitos, é um exercício que limita-se à viagens e pesquisas cool como uma caça por energias criativas. Esquecem-se, porém, que a fabricação do novo é como a poesia, ela sopra onde quer… Então, resta-nos dizer: Cuidado! Podemos estar nos cercando do que há de mais frágil numa pesquisa de tendências: o seu lado mais perecível. Elas são em geral, tendências de curto prazo. Dito em outras palavras: os modismos. Modismos tangenciam tudo, as coisas, as pessoas, os métodos e as mentalidades. Eles são voltados aos comportamentos mais facilmente mimetizáveis[1].

O ano de 2020 vai, de certa forma, orientar várias dissertações sobre os nossos conflitos, sobre a relação entre diferentes modos de vida e, certamente, ele vai traçar como inúmeras inovações tangenciaram a forma como elaboramos a nossa realidade. Em suma, os acontecimentos da Pandemia relacionada à COVID 19 esgarçaram as narrativas míticas. Se os mitos até bem pouco tempo atrás orientaram a história contemporânea, atualmente, eles estão sendo desvelados pela realidade dos fatos. Como resultado, a ficção das Fake News entrou em plena colisão com as consequências reais das suas fabulações, sejam elas ligadas às ideologias políticas ou a uma moral comportamental coletiva. Diante dessas questões, uma pesquisa de tendências não pode ignorar as distintas inclinações que revelam as orientações do ar do tempo.

Gradativamente, passamos por inúmeras revisões… sejam elas históricas, sociais ou culturais. A cada dia nosso olhar se volta para revisar o comportamento que adotamos. Revisamos nossas pautas sobre as relações interpessoais, dos gêneros, do consumo, da forma como habitamos os espaços, como educamos, como elegemos os nossos representantes e, evidentemente, como nós consumimos. Vários profissionais da economia criativa vivenciam profundos dilemas ao tentarem equacionar inovação social e criação.

Ainda tenciona-se em nosso tempo a antiga querela: o desenvolvimento econômico versus processo de modernização social. A questão do esclarecimento das massas tem trazido muitas interrogações e, igualmente, apontado para as nossas fragilidades. Assim, nos cabe apenas uma postura: interrogar-nos criticamente quanto aos nossos posicionamentos. Se fomos no passado algo que não podemos aceitar em nosso presente torna-se válida a pergunta: quais são as experiências possíveis para realizar em nosso campo de atuação?

Trata-se, nesse caso, de reconhecermos analiticamente o nosso espaço de atuação e, a partir dele, mapear duas ou três ações verdadeiramente importantes. Sob a aparente sinceridade desse texto, você deve estar se perguntando como lidar com a fragilidade do mercado ou do seu campo de atuação. Para alguns designers a resposta poderia ser clara: pela sistematização de estratégias utilizadas no mapeamento dos cenários contemporâneos. Mas nem tudo é tão simples!

Diante de tantas tensões que exercitam nossa paciência e a nossa sensibilidade cotidiana, os caminhos não são simples e nem podem ser simplificadores. Portanto, torna-se fundamental  pensar criticamente sobre o que significa vivenciar a fragilidade. É preciso experimentar a sua face confrontando-a com diversos antônimos: a segurança, o conforto, o acerto… até esgotarmos os padrões lógicos com os quais lidamos com os problemas das nossas vidas pessoais.

Diante de tanta fragilidade que vivenciamos tornou-se um imperativo escutarmos diariamente o uso da palavra segurança. A cada vez que ouvimos frases como segurança do trabalho, segurança pública, segurança do Estado etc, nós estamos na verdade lidando com as forças ocultas da fragilidade do nosso mundo contemporâneo. Pois a fragilidade é desvelada pela experiência de insegurança que nos cerca continuamente. Quando tudo vai mal, quando temos um medo exagerado ou nos sentimos angustiados pelas incertezas do futuro, vivenciamos a expansão da fragilidade. Por isso, acredito ser importante pensarmos na expansão do termo para o campo do Design, da Arte e da Arquitetura.

Alessandro Mendini (1931-2019), propôs um elogio à fragilidade e, para tanto, ele investigou como as relações entre o sujeito e o mundo poderiam dar respostas à ausência de segurança. Mendini propôs experimentar através dos mapas afetivos os limites de tudo que lhe impunha medo, explorando algumas definições sobre a sua interação com o espaço urbano, com a palavra, com as imagens e, evidentemente, com os objetos. Dessa maneira, ele iniciou uma representação da experiência da fragilidade propondo inúmeras reflexões a fim de confrontar os seus limites nos campos da arte, da arquitetura e do design. Fragilisme (2002) tornou-se não uma série de produtos ou imagens, mas como ele mesmo dizia, tornou-se uma visão de mundo.

Tratava-se de tencionar os perigos imaginários com as possíveis situações reais para que o perigo não fosse descartado. Dessa maneira, ele passou a explorar o ideário da fragilidade pelo design. Então, ele criou desenhos e mapas para explorar e reconhecer todas as situações que poderiam expor a fragilidade. A genialidade do projeto consistia em confrontar a forma, o conceito e a imagem. Mendini nos apresenta a partir desse projeto intitulado Fragilisme a subversão da função, da usabilidade, da necessidade e até mesmo da linguagem. Pois a liberdade seria nesse projeto o input para desafiar o sentimento de conforto ou da segurança. Assim, ele nos ensina que a fragilidade é um modo de perceber o mundo, a fragilidade seria um sentimento de mundo.

Ao explorar a sutil diferença entre esses aspectos da fragilidade e da segurança, ele dialogou com a sabedoria estoica. Pois a fragilidade revelou-se no projeto como uma força capaz de superar os perigos mais implícitos. Ele passou a enumerar, desenhar e poetizar a força da fragilidade. Fragilisme (2002) tornou-se um manifesto em favor da experiência de liberdade do espírito, como um exercício filosófico no campo do projeto que faria despertar a intuição do sábio. Mendini expressa em seu trabalho algumas tendências, ou melhor, algumas inclinações que nos obrigam a transfigurar a fragilidade em força. São elas: a representação, o desejo, a ação e a efemeridade. Em seu trabalho, ele cria um fluxo de imagens que remontam o perigo, em seguida, ele fomenta o desejo da experiência deslocando o desejo para a ação, e, por fim, ele desafia a finitude pela superação do medo do fim ou, talvez, do medo da morte.

De acordo com Mendini (2014), as tendências dos projetos nos direcionam para o lugar da segurança e dos acertos. Os projetos são, portanto, um tipo de ciência das certezas. E, infelizmente, eles não preparam para os enganos, os erros e para os desvios. Ainda de acordo com Mendini, nós perdemos a nossa autenticidade na convenção dos processos. Os métodos rígidos adotados em nossos trabalhos e em nossas criações nos conduzem ao conforto das verdades. Para Mendini, projetos amorais são frágeis, inseguros e absurdos!

O projetista moderno segue regras de estilo, de reflexões e de funções, implicando-se numa lógica segura para afastar os erros e as incertezas. Os projetos absurdos explodem a retórica do gosto e se afastam da instância funcional. Ademais, a postura do projetista também não se distancia da imagem do demiurgo ou da estética do connaisseur, tornando-seum espírito institucionalizado.

A arquitetura do frágil postula a impossibilidade das hipóteses, recusa a reforma social em favor das contradições da vida real. Diz Mendini (2014, 90): “o projeto é um absoluto não atingível: então, cabe negar a miragem ontológica e danificá-la pela negação e sublinhar, exageradamente e ao máximo, seu erro”.

Para quem está achando a leitura da obra de Mendini abstrata demais, nós podemos transpor a sua experiência diante da fragilidade para ações reais. Seria importante, aqui, mobilizarmos sentimentos e experiências no campo simbólico a fim de traduzir em imagens ou objetos as incertezas da nossa atualidade. Assim, nos cabe uma pergunta inicial como input para realizarmos o exercício proposto por Mendini:

  • Seria possível traduzir o sentimento de insegurança em projetos de design, arte ou arquitetura, incorporando acontecimentos temporais ou coisas que nos fragilizam?
  • Após esboçar um breve briefing, tente criar um mapa sensível sobre as vivências que o empurram para a percepção da sua própria fragilidade. Observe o que desejaria fazer, mas teme a obsolescência ou o fracasso…
  • Desenhe! Desafie os perigos e fragilidades de sua própria atuação. Tente transformar em desejo todos os recalques, fazendo colidir desejo e sentimento de segurança.
  • Por fim, dê-se a chance de experimentar, vivenciar essa ideia da fragilidade por intermédio da prototipagem. Crie índices frasais, compile a prosa do cotidiano em poesia visual.
  • Ao fim desse exercício, tente perceber a diferença entre o que depende de você no processo de criação e tudo aquilo que foge ao seu controle. Tranquilize-se! Reflita sobre tudo o que em um projeto é concernente à exterioridade do mundo.
  • Escolha uma palavra-chave para o sentimento vivenciado. Tente representar um mapa colocando-se em um lugar no qual você pode experienciar a fragilidade de si, da vida e do mundo.
  • Pense em objetos, coisas, espaços, vestimentas que poderiam ser utilizadas em situações frágeis. Problematize a complexidade do mundo e seu enredamento sistêmico.
  • Quais são os possíveis mapas para situações em que a incerteza ou a fragilidade nos ultrapassa?

Nessa trama, percebemos a vida real por uma série de acontecimentos que rememoramos, pelo encontro com a Fortuna, pelos desencontros e pelos acasos, pelas coincidências, pelos encontros prováveis e improváveis, pelos infortúnios ou desconstruções. O que fica claro no método de Mendini é: o real é uma ação que estabelecemos com o exterior. Logo, cada vez que reconhecemos as nossas fragilidades damos prova da nossa capacidade de representar, de desejar, de agir e vivenciar as impermanências nas nossas vidas. Aqui arquitetamos um espaço para a fragilidade.

As tendências frente às fragilidades do nosso tempo revelam como (in)formamos o que nos acontece a partir de projetos, elaborando por intermédio de nossas criações um jogo muito particular diante da vida. Somente por meio dessa interação, nós conseguimos problematizar a precariedade e a instabilidade. Pois projetar é, segundo Mendini, antever os acontecimentos do futuro em relação às suas criações. Trata-se, portanto, de um exercício no qual as incertezas são a essência do projeto. É pelo Fragilisme que se pode desafiar a energia da desesperança de maneira a reorganizar o nosso pessimismo.

Trata-se, nesse caso, de adotar a cada instante de perigo uma nova postura para os imprevistos… E, diante de uma multiplicidade de papéis e ações, descobrirmos no processo uma nova energia para o enfrentamento dos problemas cotidianos. Adotar a perspectiva da fragilidade é experimentar como o imaginário da prática de projeto pode encontrar a sabedoria da segurança. Entretanto, para conquistar tal sabedoria é necessário o risco. Para se alcançar a experiência de segurança é necessário evitar a tentação das certezas. Por isso: Cuidado! Frágil é toda verdade que nunca foi contestada e todo erro que jamais foi identificado. Diz Paci (1950): “nenhuma existência e nenhum ato humano pode pretender ter um valor absoluto: o mundo e a vida são os números de um absoluto inacessível”[2].

Referências:

MENDINI, Alessandro. Fragilisme. Paris: Fondation Cartier, 2002.

MENDINI, Alessandro. Che cos’e il Kitsch? Milan: Skira, 2004.

PACI, Enzo. Il nulla e il problema dell’uomo. Turim: Taylor, 1950.


[1] Tal como a personagem do filme Zelig (1983)  de Wood Allen.

[2] Essa citação está intimamente relacionada à epígrafe do texto. Há uma potência na fragilidade da vida quando se confronta com a morte. As imagens das árvores Ficus da Avenida Bernardo Monteiro concebidas pelo ilustrador Nelson Cruz são a alegoria da fragilidade da vida no esvaecimento das coisas no tempo. Essas árvores são a imagem do Fragilismo como resistência. Sugiro ler: CRUZ, Nelson. Benjamina. Belo Horizonte: Miguilim, 2019. 

Imagem capa: Help out! [The Liberated Woman] 1926 – Marianne Brandt

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