Charme insolente

Com obras contemporâneas e do novo realismo, a Galerie Vallois, localizada em plena Rive Gauche, em Paris, mantém uma familiaridade rara com os artistas que representa. Entre os encantos, cultiva uma joie de vivre tipicamente francesa.

Insta: Galerie GP & N Vallois

Como é possível apreciar o que não se pode compreender?” Quando o assunto é arte contemporânea, essa é a primeira crítica a ser levantada por amigos e familiares, ao que sempre respondo: será que não era essa a mesma reação às criações surrealistas de Dalí ou à franqueza do realismo de Kahlo? O que pensavam os contemporâneos de Picasso ao se depararem com seus quadros cubistas? Pessoalmente, acredito que essa mistura de espanto com toques de diversão com relação ao que é novo seja apenas um reflexo da nossa condição humana. É intrínseco à nossa natureza buscar respostas em absolutamente tudo e que sejam claras o suficiente! Essas respostas trazem, naturalmente, acalento e conforto em um mundo tão cheio de inseguranças…  

Respeito os meus amigos críticos da arte contemporânea, mas peço licença para dizer que uma outra ideia me seduz muito mais. Encanto-me, por exemplo, com a beleza daquilo que não se revela óbvio após o primeiro olhar. Sinto um fascínio indescritível pelo sentido que só é encontrado após uma reflexão mínima sobre aquilo que se vê, que se lê, que se ouve, ainda que, de fato, seja incompreensível, que não haja sentido ou, digo mais, ainda que se encontrem múltiplos sentidos (o que, a meu ver, torna tudo muito mais interessante). Assim deve ser a vida, livre de imposições, e assim se traduz a arte contemporânea. O fato de não existirem interpretações muito óbvias faz meus olhos brilharem e meu coração bater mais forte. Não foi por coincidência que acabei por deixar minha formação jurídica on hold e decidi me entregar à aventura de fazer um estágio em uma galeria de arte contemporânea parisiense, um sonho de uma garotinha de dez anos que, dentro de mim, está dando pulinhos de alegria. 

E por falar em sonhos, descobri que nem só de pinturas, esculturas e desenhos vive uma galeria de arte. Sonhos são peças essenciais, me disse Nathalie Vallois, uma das fundadoras da Galerie Vallois ao lado de Georges-Philippe Vallois. “Coloque-se na direção de seus sonhos. É o que sempre digo ao meus filhos…”, me confidenciou ela. Fundada em 1990, em um momento de crise, foi preciso muita confiança em seus sonhos para que Nathalie e Georges-Philippe construíssem a história da galeria que causou burburinhos na época por ser a primeira a se dedicar tanto ao novo realismo, movimento artístico assinado em 1960 pelo crítico de arte francês Pierre Rastany, ao lado de artistas como Yves Klein (famoso pelo seu azul Klein), Arman, Jean Tinguely, Jacques Villéglé, entre outros, quanto à arte contemporânea. Dois universos aparentemente antagônicos.

Em plena rive gauche, é no charmosíssimo e heteróclito quartier de Saint Germain-des-Près, entre antiquários e galerias de arte, nos números 33 e 36, Rue de Seine, que se encontram os dois espaços da galeria, atualmente dirigida por Marianne Le Métayer. Instalada em um prédio com fachadas clássicas e atrás de portas verde-acinzentadas, a regra da casa é ir justamente contra a monotonia do clássico, considerado quadrado, passado, obsoleto. A regra é transgredir a regra entre novo realismo e arte contemporânea. Essa dualidade constitui ainda hoje uma das singularidades da galeria, que representa novos-realistas consagrados como Jacques Villeglé, Jean Tinguely, além da minha queridinha Niki de Saint Phalle. Se na forma os movimentos se distinguem, ambos compartilham o mesmo estado de espírito: um quê de irreverência, um não conformismo com o status quo, uma rebeldia intelectual que fascina o observador. Dos novos realistas, tomo Niki como exemplo que, por meio de suas extraordinárias esculturas se rebelava contra a padronização do corpo feminino, assunto tão passado e ainda tão recente… Sua série de performances chamadas Tiros, iniciada em 1961, representa genuinamente o movimento subversivo de ruptura com os códigos artísticos da época. Um trabalho formidável da única mulher do grupo.

Entre os jovens artistas contemporâneos note-se a presença de Winshluss com suas ilustrações extremamente divertidas e politicamente incorretas e Alain Bublex, que mistura fotografia e desenho vetorial para construir paisagens hiper-realistas. Vale à pena conferir a obra de Gilles Barbier que, resistindo a toda forma de opressão política, social ou artística, se recusa a aceitar qualquer definição pré-estabelecida para seu trabalho. Entre os mais jovens, são representados nomes como o de Pierre Seinturier, que ano passado assinou o pôster do torneio de tênis Roland-Garros, com apenas 30 anos de idade, e o do paulistano Henrique Oliveira, conhecido por suas instalações de madeira que fogem do comum.

Mas não se deixe enganar pelo charme insolente da Galeria que é acompanhado de uma joie de vivre tipicamente francesa, sem mencionar a familiaridade que guarda com os artistas que representa, algo considerado muito raro no meio. Ali dentro, a equipe carrega um espírito descontraído e conta com especialistas (e estagiárias muito simpáticas, diga-se de passagem) prontos para receber o público. Enquanto as fronteiras permanecem fechadas, além de acompanhar as novidades pelo @galerievallois, você pode conhecer um pouco mais desse mundinho adoravelmente rebelde pelo site www.galerie-vallois.com, que tem repertoriado todas as exposições desde 1990.

* Lauren Magalhães é advogada, formada pela Universidade Federal de Minas Gerais e mestre em Propriedade industrial e artística pela Université Paris I – Panthéon Sorbonne. Atualmente mora em Paris e é estagiária na Galerie Georges-Philippe & Nathalie Vallois.

Insta: Lauren Magalhães

Imagem capa: Vista da exposição « Belles, Belles, Belles ! Les femmes de Niki de Saint-Phalle », 2017. Foto: Aurélien Mole / Cortesia Galerie GP & N Vallois, Paris

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