Avarandar a vida

Projeto do Estúdio Guto Requena contempla mínimos detalhes para harmonizar poesia e tecnologia a uma apurada curadoria de design e arte

Insta: ESTÚDIO GUTO REQUENA

De repente, ninguém mais falou em varanda, porque esse espaço tão gostoso virou ‘espaço gourmet’, expressão que fez com que um monte de gente a pulasse de cabeça e se refastelasse nesse jogo de palavras vazias. O marketing se apossou delas sem cerimônia e sem oferecer necessariamente um ganho real sobre o ordinário.

Mas sim, as varandas sempre foram pensadas para serem um lugar especial da casa. E era isso que o morador desse apartamento queria: desfrutar de uma varanda.

Como o edifício não oferecia essa possibilidade, a fachada de vidro, piso-teto tornou-se a principal inspiração. No projeto do Estúdio Guto Requena, essa inspiração ultrapassou o previsível: transformou todo o apartamento, e não só um pedaço dele, em uma varanda.

Uma longa floreira suspensa atravessa todos os ambientes integrados e desenha, junto com os vasos de chão e pendentes, um bioma particular. A vegetação em escala cria uma verdadeira floresta urbana, com árvores frutíferas, horta produtiva e espécies com flores.

Não é só isso que impressiona nesse projeto: ele rompe com a configuração tradicional do apartamento setorizado em áreas social, íntima e de serviço e cria uma planta flexível, permitindo que paredes ou peças de mobiliário se desloquem para uma participação ativa do morador.

Um apartamento que foi desenhado a partir de suas atividades, como, por exemplo, trabalhar, dormir, comer, receber amigos, cuidar das roupas ou relaxar. O resultado é uma arquitetura dinâmica e interativa, capaz de acolher diferentes práticas cotidianas.

A cozinha é um dos exemplos de ambientes que se flexibilizam conforme a vontade do morador. Interligada à sala por portas pivotantes de grande dimensão, pode funcionar também como lugar de encontro ou home office, multiplicando as possibilidades usuais para esse tipo de espaço. Ela se divide em área de preparo e de trabalho (viabilizados por uma bancada, lousa magnética e televisão) e área de limpeza, envolta por uma horta.

No escritório, a mesa de trabalho e a luminária, feitas com madeira reaproveitada a partir do antigo piso, podem ser rotacionadas automaticamente, para privilegiar a vista para a janela ou receber as pick-ups de DJ em dia de festa.

A sala recebe um grande cinema com uma tela de 120”, que se transforma numa sala de reunião com câmera e microfone para calls integrado no próprio telão. Utilizando o mesmo projetor, nas horas de lazer, a parede se torna uma galeria digital, recebendo imagens de obras de NFT da coleção dos moradores.

Em dias de festa, com o rápido deslocamento de alguns móveis, a sala se torna uma pista de dança, com uma iluminação áudio reativa anexada a floreira suspensa.

Detalhe importante: concreto e virtual mesclam-se para construir uma espacialidade chamada híbrida, onde o concreto e o tijolo misturam-se a cabos de rede, microcontroladores e sensores. Uma das ferramentas que possibilitou a criação de espaços responsivos foi a automação.

Assim, o gerenciamento da casa pode ser controlado virtualmente através de dispositivos móveis ou no próprio local, através dos keypads inteligentes ou via comandos de voz, permitindo configurar diferentes cenários, do dia-a-dia a uma estação de trabalho, festa ou cinema. Acessos, iluminação, irrigação, áudio e vídeo, cortinas e mobiliários são automatizados.

Todos os mobiliários e peças de decoração foram especialmente selecionados. Nomes do design nacional como Sérgio Rodrigues, Jean Gillon, Irmãos Campana, Zanine Caldas e Lina Bo Bardi dialogam com peças de jovens designers brasileiros como Guilherme Wentz, Ronald Sasson, Daniel Jorge, Lucas Neves, Carol Gay, Jacqueline Terpins, Ovo Design, PAX Arq e Alva Design. A essas peças misturam-se outros nomes icônicos do design internacional como Maarten Baas, Antonio Citterio, Yrjo Kukkapuro, Le Corbusier, Jasper Morrison e Frank Gehry. Além disso, o próprio Estudio Guto Requena apresenta neste projeto uma série de protótipos.

O objetivo de um projeto sustentável também foi alcançado com a escolha de revestimentos e materiais que priorizam produtos nacionais e com selos de certificação e com detalhes criteriosos como o de transformar o antigo piso de madeira de Ipê, que  foi cuidadosamente retirado e tratado, e se tornou uma coleção de móveis desenhados pelo Estudio Guto Requena para o apartamento, como mesa e luminária do escritório, painéis, bancadas, etc. Toda iluminação é de LED e o sistema de automação possui controle de eficiência energética.

FOTOS – MAÍRA ACAYABA

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