ATELIÊ ABERTO
Lendo Marcia Tiburi

Ao me formar, em 1984, jamais imaginaria que, em 2021, abriria um texto com a célebre frase de George Orwell: “Era um dia frio e luminoso de abril e os relógios davam 13 horas”.

Insta: Márcia TiburiArtist Protection Fund

Não estamos em abril nem na Oceania, mas sim na Paris do mês de maio em plena primavera. Uma aparente calma, mas estranhamente nesta semana em que os militares Franceses resolveram se manifestar criticando o governo. Que incompatível ouvir isso na França. Tão longe das distopias do estado Brasileiro. Definitivamente, o planeta está ficando medíocre como um todo. Será que aqui também quem pensa contra um regime pode ser acusado de cometer um crime? Crimeideia.

E de volta ao começo. Que coisa mais « démodé” nesse lugar onde eu achava que já tínhamos vencido essa grande mazela contemporânea que é o totalitarismo. Assim começou a minha ida para visitar o atelier da Marcia Tiburi. E lá vou eu. Não é fácil achar a Marcia. Ainda bem. Ela está protegida, neste espaço imenso, cercada de grandes lindos galpões cheios de atelier de artista.

Já na entrada uma sala ao ar livre me fala de liberdade e nos convida a aproveitar da vista, compartilhar a vida e um pouco do verde. Depois de procurar por um tempo, descubro que o atelier de Márcia fica à direita da entrada. Incongruente? As vezes não, nem sempre a gente escolhe onde estar. Mas escolhemos, com certeza, nosso lugar no mundo. Tudo é uma questão de perspectiva: o partido da Macia é a humanidade, a ética, a justa medida das coisas.

Essa professora de filosofia, escritora e artista visual transborda sua energia numa calma doce de quem sabe fazer acontecer. O lugar está lindo, cheio de uma força criativa contagiante. Digo está, porque fico imaginando o que seriam dessas paredes se estivessem despidas do encontro com as obras de Marcia Tiburi. Mais uma vez, o poder de transformar um lugar qualquer, que parece sala de escritório de grande empresa, no “lugar”. Essa é a arte que Marcia escreve todo dia. A da transformação, do olhar para o que muitos não querem ver e trazê-lo à tona em uma forma contundentemente bela. Denunciar o que não se pode esquecer.

 A luz entra pelas grandes janelas de alumínio, deixando claras as ideias. Marcia Tiburi é pessoa para ler com os sentidos. E vendo o atelier, entendemos que o espaço da Márcia tem muitas dimensões: filosóficas, históricas, políticas. São muitas camadas de um saber que ela vai misturando nas tintas e que se espalha pela mesa, pelo chão. Escreve pelas paredes, derrama a percepção de tristes momento brasileiros. O antes e o depois. Algumas das 377 camisas brancas que ela vai pintar já estão dependuradas na arara. Imortalizar a Comissão da Verdade é preciso. Terríveis personagens também na força do traço.

Amei os ancestrais, as máscaras da peste, a representação daqueles que “comiam ouro”. Solar nos seus amarelos e dourados, explosiva nos seus vermelhos, ela grita o Brasil da dor dos porões sombrios do DOI-codi. Ratos, serpentes, jacarés. Vermelho tinta para que o sangue não escorra nunca mais. Quem escutou Cazuza sabe que as ideias de muitos não correspondem aos fatos e que o tempo não para.

Ela me fala dessa vida em suspensão. Como todos nós, ela está à espera. No provisório destes dois anos que não acabam mais. No meu caso, faz muito tempo que decidi fazer dos meus provisórios, todos definitivos. Eternos enquanto durem, à la Vinicius de Morais. Depois desse encontro, a arte da Marcia é definitiva para mim.


FOTOS: Glaucia Nogueira

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