Arte que arde

Também na exposição em cartaz no BDMG Cultural, Desali e Affonso Uchôa contagiam a arte com a energia da periferia

Insta: Affonso UchôaDesaliBDMG CulturalAM Galeria

Para falar de um artista, de uma obra, ou de uma exposição, muitas vezes o nome, o currículo, alguma particularidade, vem logo no início do texto, como a introduzir e cativar o leitor. Aqui, essa lógica foi invertida. Parte de duas cenas que aconteceram recentemente e que mostram que a força da arte não se destina apenas a um reduto de pessoas que, ao que parece, já nascem dizendo que gostam de arte. Acontece que o que parece, nem sempre é.

Cena 1: Meninos de uma empresa de plotagem estão trabalhando na galeria do BDMG Cultural, em Belo Horizonte. Um deles começa a reparar no que está exposto, a série fotográfica Sangue de Bairro, de Desali e Affonso Uchôa, e se empolga com o que vê. A partir daí, inicia uma animada conversa entre eles. São jovens da periferia, periferia que também está nas cenas enquadradas nas fotos da dupla de artistas.

Cena 2 : O homem que trabalha de segurança, com a timidez de quem está saindo de seu espaço social, também se interessa pelo que seus olhos vêem. Conversa com os artistas, quer saber mais e diz que se sentiu reconhecido ali.

A exposição mostra um trabalho que Desali e Uchôa tem feito desde 2008 continuamente.  Nela, estão recortes da dinâmica do bairro Nacional, onde os dois vivem, em Contagem, MG. “Surgiu o desejo de fazer algo junto, de levar a amizade para a produção artística. A linguagem fotográfica é de interesse dos dois, é um dispositivo para o diálogo e convivência que temos”, explica Uchoa. É também uma outra forma de dialogar com o bairro onde moram, região que está presente de várias formas no trabalho dos dois. Sangue de Bairro é uma mostra contundente e intimista ao mesmo tempo, revelando uma mirada única para esse território periférico na região metropolitana de Belo Horizonte. 

Affonso Uchôa

Affonso Uchôa é cineasta e fotógrafo. É diretor dos filmes MULHER À TARDE (2010), A VIZINHANÇA DO TIGRE (2014) e SETE ANOS EM MAIO (2019), e também codiretor do filme ARÁBIA (2017). Seus filmes foram exibidos em diversos festivais ao redor do mundo, como os Festivais de Roterdã (Holanda), Viennale (Áustria), Festival de Toronto (Canadá), Festival de Brasília (Brasil), Mostra de Tiradentes (Brasil) e Festival de Mar del Plata (Argentina), além de importantes instituições como a Cinemateca Francesa (França), Arsenal (Alemanha) e o Anthology Film Archive (EUA). Em fotografia desenvolveu, junto ao artista visual Desali, os trabalhos IZIDORA, PRESENTE ( galeria Mari’Stella Tristão – Palácio das Artes, Belo Horizonte, 2016) e SANGUE DE BAIRRO ( galeria do BDMG Cultural, Belo Horizonte, 2021).

Desali

Warley de Assis Rodrigues, o Desali, transita por múltiplas linguagens, como a pintura, a fotografia, a ação performativa e o vídeo, com obra marcada pela subversão das hierarquias, tanto artísticas quanto sociais. Como suporte ele pode usar jornal, madeira encontrada na rua, papelão ou tela em obras que variam de cor e estilo.

No que ele faz, os resíduos da cidade, as memórias mais ínfimas ou mesmo o lixo podem ter valor artístico. É assim que ele promove um contato entre a periferia, as camadas sociais mais desfavorecidas e o universo da arte, questionando as instituições artísticas tradicionais e as contaminando com a energia da rua. Talvez isso tenha influenciado para que Desali caísse no gosto das galerias e do mercado tradicional de arte. Em Belo Horizonte, ele é representado pela AM Galeria.

Formado e pós-graduado em Artes Plásticas pela Escola Guignard (UEMG), Desali tece uma narrativa sobre o presente, pautada pela exclusão social e a segregação dos espaços urbanos nas cidades. Entre diversas mostras individuais e coletivas, atualmente ele é um dos artistas convidados da mostra Carolina Maria de Jesus: um Brasil para os Brasileiros, em cartaz no Instituto Moreira Sales – São Paulo e está também entre os artistas contemporâneos da exposição Enciclopédia negra, na Pinacoteca de São Paulo, desdobramento do livro homônimo, lançado em março deste ano pela Companhia das Letras.

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELA AM GALERIA DE ARTE

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