A costela de Kislansky

A sensibilidade do artista Israel Kislansky, nome referência em escultura figurativa da atualidade no Brasil, percorre os mais variados caminhos

Insta: Israel Kislansky

Para quem não é artista, ou não tem o lado artístico desenvolvido, talvez seja difícil imaginar como se dá o processo criativo de quem pinta, desenha ou esculpe. O mais fascinante é que esse processo nunca se repete. Cada um é um, mesmo quando o autor é a mesmíssima pessoa.   Para criar, o chamado costuma ser interno, ou internalizado a partir de algo que se observa. Israel Kislansky, um baiano que mora em São Paulo desde 1983, não difere sua história da de muitos outros artistas que começaram a pintar e a desenhar de forma espontânea, bem antes de saber que aquilo seria uma das forças mais pulsantes no decorrer de suas vidas.

Ainda na Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, onde se formou em Artes Visuais, Kislansky gostava de desenhar os colegas, pintar retratos de corpo inteiro de familiares. Por isso, aos 24 anos, quando começou a se dedicar à escultura, o figurativo falou mais alto. Não foi uma escolha, foi um impulso, como ele diz, a escultura acabou rapidamente tomando o espaço da pintura, embora, hoje, o bidimensional esteja lhe cutucando novamente.

Embora o nome de Israel Kislansky seja referência em escultura figurativa e fundição de obras de arte em metal no Brasil desde o início da década de 1990, seu percurso como artista não foi o tradicional. As exposições aconteceram e acontecem, mas durante todo esse tempo, Kislansky também tem se dedicado com fervor a assuntos ligados à cultura e à educação.

 Entre muitas atividades, ele foi o responsável pela criação do “Centro Técnico em Fundição Artística – SENAI-SP” com o objetivo de revisitar conceitos tradicionais e democratizar o acesso das tecnologias a profissionais do mercado. Foi ele também quem dirigiu a equipe que fez o último restauro do Monumento à Independência, no Parque do Ipiranga, em São Paulo, uma tarefa muito mais delicada e que necessita de um alto conhecimento do que se possa imaginar.

O certo é que, enquanto realizava essas e outras tarefas, como os cursos que ministra regularmente pelo Brasil e em Portugal, e em cidades como Paris, Barcelona, Madri e Santiago, ele foi construindo uma linguagem própria em suas esculturas. Sempre muito envolvido com a representação do corpo humano, sobretudo o feminino, elas partiram do nu feminino no começo, quando utilizava modelos vivos, à transformação que aconteceu sem que ele, na época tivesse processado racionalmente, com a experiência de se tornar pai. “Nada foi de propósito, a vida vai te oferecendo transformações e muitas vezes você acha que o que está criando não está relacionado com o que está vivendo, até perceber uma série de ligações”, comenta.

Com o nascimento do filho ele criou uma série de cerâmicas, inspiradas nos velhos de uma sinagoga que frequentava com a família na Bahia, que culminou com a exposição chamada Abasheli, nome de seu pai em hebraico. Depois, com a chegada da filha, ele criou mulheres ânforas, com a ideia de que a mulher também é um pote onde está a vida e a ânfora com a simbologia do sagrado.

Os saberes que trazem à tona o trabalho de Kislansky, ora em metal, ora em cerâmica, estão relacionados à sua vocação para experimentar. Ele conheceu fundições europeias, iniciou o trabalho no Senai em 2007 e, enquanto não criou sua própria fundição, em 20015, trabalhou com a cerâmica.

Sua intensa produção até 2019 ficou represada com a pandemia e o momento agora é de divulgar o que foi feito. “Para mim, já são peças antigas e estou com energia para fazer coisas novas, mas a hora não é de organizar muito, é de esperar as coisas se organizarem”, diz.

Ele analisa que a pandemia aflorou dois lados fortes. Um deles, de perplexidade, medo e insegurança: “Diante de um governo irresponsável, além dos problemas inerentes à pandemia, somos vítimas de uma barbárie e esta história ainda vai ser contada”, desabafa.

Por outro lado, Kislansky vê o último ano e o atual como um momento de muita aprendizagem, das possibilidades permitidas pelas relações remotas, dos cursos de história da arte online. Esse tempo recente também alterou suas atitudes: ele criou, entre outras, uma ação batizada de Caleidoscópio, uma reunião com artistas, cineastas, intelectuais para debater temas e contribuir financeiramente para instituições culturais, entre elas, uma orquestra sinfônica de uma favela no Rio de Janeiro. “Foi um momento que, mesmo não parecendo, não ficamos de braços cruzados”.

Sobre seus trabalhos realizados até 2019, ele expõe atualmente no espaço Casa com Arte, ambiente/galeria da Bel Lar na CASACOR Minas 2021, que tem projeto assinado pela arquiteta Patrícia Hermanny. Sobre o futuro, a vontade de voltar ao bidimensional, ele já adianta que tem experimentado gravuras. É esperar para conferir em breve.

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