A arte de Carlos Rezende

Um trabalho que encanta por seus múltiplos percursos e propostas, algo que se amplia quando nos sentimos próximos do artista

Insta: Carlos Rezende

Uma obra de Carlos Rezende acompanha a história de Leopoldo Gurgel há algum tempo. Apaixonado por arte, ele a comprou em uma galeria de arte e sempre quis saber um pouco mais sobre o autor, que não conhecia pessoalmente. Recentemente, Leopoldo o encontrou nas redes sociais, fez contato e, para nossa surpresa, um vasto universo que mistura arte, filosofia, amplos e profundos estudos e uma ordem de pensamentos ora emaranhados, ora muito bem amarrados se abriu diante de nós.

O primeiro desejo foi compartilhar um pouco da história desse artista multidisciplinar, que primeiro escolheu a arquitetura, menos pela atração exercida pela profissão (pois a arte sempre lhe falou mais alto), e mais pelos professores com quem teria contato em sua grade curricular, principalmente os que posteriormente se tornaram seus amigos, como é o caso de Cláudio Tozzi.

Depois de se formar pela FAU – USP – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo, Rezende mudou-se para a Itália, onde primeiro estudou afrescos e história da arte na Accademia di Belle Arti di Roma e depois, a técnica de desenho Sanguínea, na Casa Buonarotti, em Florença e no Museu da Academia de Veneza.

Rezende é muralista, desenhista, gravador, fotógrafo e escritor, autor do livro “Os Véus, A.”, Edição Autoral, 2011. Ele já desenvolveu projetos de murais junto com o artista americano Sol Lewitt e também com o arquiteto brasileiro Ruy Ohtake, entre outros. Artista do circuito internacional, com exposições em Cingapura, Roma, Hong Kong e Zurique, também participa de mostras no Brasil.

Para falar um pouco de seu trabalho, escolhemos um texto de Ana Luisa Howard de Castilho, intitulado Blue Days 3, que resume e tenta traduzir um pouco dessa série, cujo trabalho, comentado no início desse texto, já nos encanta há muito tempo.

Blue Days 3

“Para o artista, a criação começa com a visão. Ver já é um ato criador.” (Henri Matisse)

Azuis são os dias em que nosso olhar para o mundo é mais introvertido. São os dias azuis vibrantes fundamentais para desafiarmos as certezas e esclarecermos as dúvidas. Lápis, fotografia, litografia, lito-offset, impressão em água-forte, módulos escultóricos e desenho digital.

Estes são os meios escolhidos por Carlos Rezende para representar como vê o mundo contemporâneo, transpondo o corpo – matéria anatômica – para o desenho do corpo, por meio de uma plataforma vetorial, que resulta no projeto de ‘módulos ficcionais de anatomia’, confirmando, assim, que o que lhe interessa é o ‘desenho de anotação’, termo cunhado por Renina Katz, e não a representação literal do objeto, como objetivava sua fonte de consulta e inspiração.

O artista se inspira no arquétipo do homem renascentista, à medida em que é arquiteto, artista, fotógrafo, escultor, escritor, e que também se preocupa com a técnica, buscando inspiração por meio da transpiração e da observação dos desenhos de botânica ou de anatomia, como os de Shinnin Kawaguchi, Adriaan Van Spiegel e Bernhard Seigfried Albinus, desenhistas que, por meio da observação, anotavam com o objetivo de conhecer o corpo humano, e davam a ele sua possível representação. Este trabalho foi de suma importância para os avanços da medicina durante mais de cinco séculos.

Apesar das dificuldades que possam ter surgido, idade, sexo e raça são alguns fatores que podem gerar variações entre as peças anatômicas, tais quais outras características permitem observar as variações na botânica. No entanto, o olhar sobre repetidas peças conduz o espectador a buscar elementos para organizá-las em blocos semelhantes e classificados, tal qual se faz ao definir uma seriação. Entre técnicas e materiais, Carlos Rezende se utiliza dos seus ‘blue days/dias azuis’ para propor um vínculo entre a seriação e os objetos representados. Contudo, o oficio do artista é pautado por indagações, que surgem do processo de construção de seu trabalho, e estas não são conclusivas. Ao contrário, elas permanecem abertas justamente para garantir a elas indispensáveis reformulações.

(Ana Luisa Howard de Castilho)

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