Uma cadeira e seus vazios

Peças do piauiense Junior Brandão despertam admiração de arquitetos e tem por trás uma rica e divertida história de vida

Insta: Júnior BrandãoCasacor Minas

Às vezes, uma história de vida cabe em poucas linhas, às vezes é o tempo que acelera e as mudanças são tão rápidas, que parece que aconteceram ontem. Embora distantes, ficam extremamente nítidas na memória. Com o artista e designer Junior Brandão dá para se envolver de qualquer jeito. Em poucas palavras, ou se atendo a detalhes que narram sua trajetória.

O resumo é simples: há um ano ele resolveu se dedicar somente à arte e, há pouco mais de três meses, por obra do acaso, começou a criar cadeiras que têm despertado o interesse de arquitetos e designers de interiores. Uma de suas peças está na edição deste ano da CASACOR Minas, no ambiente de Cristina Meneses, em Belo Horizonte. A outra, na mesma mostra, em São Paulo. O sucesso, entretanto, não é novidade para esse piauiense de Teresina, com quem tivemos a oportunidade de bater um papo pelo celular.

A conversa começou extrovertida, exatamente como o Júnior Brandão é. Comentei que havia procurado alguma coisa sobre ele na internet e ele me respondeu que ainda não tinha nada, eu era a primeira jornalista a procura-lo. Oba! Pensei com meus botões, e fomos em frente. Ele, a caminho do aeroporto para pegar um voo para São Paulo, eu em frente ao computador, batucando as teclas freneticamente enquanto ele falava.

“Quem me conhece sabe que nasci artista”, dispara no começo da prosa. O garoto que sempre gostou de pintar e desenhar, escolheu cursar jornalismo, mas largou a faculdade porque queria viajar. O destino? Alemanha. Olhou no mapa e escolheu: foi direto pra Zurich e se identificou imediatamente, tamanha a facilidade para aprender a língua, algo fora da curva para pessoas que só falam o português.

Para fazer a viagem, Júnior pintou alguns quadros, expôs em uma galeria de Teresina e…tchan, tchan, tchan, tchan… vendeu tudo! “Paguei a exposição do próprio bolso, vendi as obras e fui”, resume. Ficou 40 dias, voltou para o Brasil, mas pouco tempo depois lá estava ele de novo. “Durante três anos, trabalhei em todo tipo de subemprego que se possa imaginar, até que chegou o dia que percebi que tudo que eu tinha cabia na minha mochila”, lembra. Era hora de voltar. Aos 24 anos, Júnior entendeu que precisava constituir algo mais sólido.


A irmã, que já trabalhava com moda, lhe propôs sociedade. “Se eu sei fazer arte, roupa é mais ou menos a mesma coisa”, pensou. Com o tempo, a marca dos irmãos virou um dos endereços mais concorridos de Teresina. Ele assinava coleções casuais, trajes de festa, criava sapatos e bolsas, além de desenhar as estampas exclusivas da marca. 

A experiência durou 16 anos. A vida da irmã tomou outro rumo, ele achou que não tinha condições de levar a empresa sozinho e abriu um ateliê exclusivo para noivas. Mais quatro anos se passaram, até que aconteceu o famoso click, que muda a vida de uma pessoa assim, de uma hora para outra.

“Minha casa e o trabalho eram pertos e, um dia, com a empresa funcionando bem, a casa linda com jardim e cachorro, eu pensei: o que estou fazendo da minha vida?” Naquele dia, Junior não foi trabalhar. “Passei o dia na piscina pensando o que eu realmente queria da minha vida.” Junior, então, se organizou para fechar o negócio, o que aconteceu um ano mais tarde, e virar a mesa, dedicando-se às artes visuais. “A última encomenda foi entregue exatamente 365 dias depois daquela decisão”, diverte-se.

Daí em diante, Júnior passeou pela fotografia, começou a fazer esculturas utilizando fios de cobre, ainda sem aquela paixão que procurava. Ela aconteceu ao acaso: “Cheguei em casa um dia e a faxineira tinha colocado uma das minhas esculturas em cima de outra. Pensei na hora: é isso que tenho que fazer, sobrepor as peças”.

Depois dos fios de cobre, Júnior utilizou varetas de latão que ia dobrando, criando volumes e desenhando o espaço negativo, o vazio da escultura. O sucesso veio imediatamente. Vendia todas as peças que fazia, até que deu um novo estalo: “Se eu faço esculturas, posso fazer algo que sirva para as pessoas assentarem”.

Foram muitas tentativas até acertar o material e a forma de fazer. Hoje suas cadeiras são feitas em alumínio com pintura eletrostática e podem ficar em áreas externas. Nesse exato momento da conversa, ele me diz que estava embarcando para a abertura da CASACOR SP. “A Brunete Fracaroli me ligou, disse que amou meu trabalho, eu embarquei a peça para o ambiente dela, mas não chegou a tempo. Qualquer pessoa no meu lugar ficaria arrasada. Não fiquei e, mesmo que a cadeira não tenha feito parte da festa de inauguração, ela vai estar lá”, comemora o designer mais alto astral que já conheci.

FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELO DESIGNER

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