Um Brasil iluminado

Desejo de muitos e também do azulejista Alexandre Mancini, um mestre nessa arte que oferece um cotidiano urbano mais gentil

Insta: Alexandre Mancini

Não é o Brasil, mas o momento pobre que atravessa o país, que extrapola a falta de comida no prato de milhões, de abrigo e de certezas. A reflexão de Alexandre Mancini é que o Brasil possível é o Brasil iluminado, o Brasil dos azulejos, alusão que faz a um período em que grandes talentos nacionais, de muita efervescência criativa, foram reconhecidos e reverenciados mundialmente. A ressalva que Mancini faz, entretanto, nos anima e nos situa em uma esfera onde a esperança persiste. “O bom é que a gente sempre encontra pessoas legais. É um detalhe do cotidiano, faz parte, isso é bonito”, sintetiza.

Alexandre Mancini é nome referência na Azulejaria Brasileira, escrito assim mesmo, em maiúscula, por ter identidade única, inclusive da portuguesa. Integrando com perfeição arte e arquitetura desde os anos 30, ligada à arquitetura moderna de Lúcio Costa e Niemeyer, essa forma de arte evoluiu com maestria nas mãos de nomes como Portinari, Burle Marx e Paulo Rossi Osir. E viveu seu ápice com os trabalhos de Athos Bucão em Brasília. Um artista que, com imensa simplicidade revestiu Brasília e conseguiu fazer um contraponto belíssimo à frieza do concreto armado.

Os azulejos vieram quase que pelo acaso para a vida de Mancini, que já havia abandonado o curso de Administração no início, já teve fábrica de underwear e até banda de música. No começo, ele os fazia para consumo próprio. Travar contato com o trabalho de Athos Bulcão, entretanto, deu aquela lufada de ânimo que é possível sentir ao começar algo novo, o que também carece de altas doses de dedicação, estudo e essa coragem inocente ao escolher para trilhar um terreno desconhecido.

Logo no início, Mancini percebeu, ao pesquisar a Azulejaria Brasileira, que era importante entender a história do país, aprofundando no que a sociologia e a antropologia tinham a lhe oferecer naquele momento. “Sentia necessidade de conhecer mais essa tradição da qual eu fazia parte, de me situar e por isso acabei tendo que entender o Brasil. Por isso a tristeza atual com o Brasil de agora”, revela.

Em 2006, quando todo esse processo começou, o artista não imaginava que havia mercado para o que havia escolhido como profissão. Mas o processo foi crescente e as demandas foram aumentando. “Os primeiros anos foram importantes no sentido de formação. Eu me casei no início de carreira e minha filha nasceu em 2010. É uma história recente e que permeia tudo de melhor na atual etapa da minha vida”, diz com satisfação.

Ao longo desses anos, Alexandre Mancini tem criado e executado inúmeros painéis de azulejos, obras únicas, encontradas em cidades em todo o Brasil, principalmente em Belo Horizonte, sua cidade natal. Na capital mineira, seus painéis estão na Praça da Pampulha, no edifício sede do Sebrae MG, na Sede do Clube Atlético Mineiro e em vários outros pontos da cidade. Foi ele também o autor de um dos pôsteres oficiais das Olimpíadas Rio 2016.

Em seus trabalhos, Mancini busca integrar harmonicamente os painéis de azulejo ao espaço arquitetônico, o que permite explorar a percepção sensorial do expectador, ao mesmo tempo em que oferece um cotidiano mais gentil para a cidade e quem nela mora. Por isso, uma boa parte das obras de Alexandre Mancini utiliza elementos geométricos simples, como módulos autônomos, que em livre combinação com seus pares revelam o ritmo e o movimento da obra. Muitos desses painéis são finalizados com plena liberdade pelo pedreiro azulejista, a partir de regras simples.

Atualmente, os 15 anos contados desde o primeiro azulejo que vendeu, tem mexido muito com o artista. A conta feita indica algo próximo a três mil metros de obras saídas do ateliê, indo para o forno, tudo com as próprias mãos. Sentindo a necessidade de novos desafios, ele está prestes a lançar uma nova marca, com obras assinadas com estilo muito bem definido, diferente do que tem apresentado até agora. “São azulejos sem muita pretensão artística, algo mais leve, que une o artístico ao ornamental. A experiência é prazerosa, me deu vontade de fazer coisas novas, buscando referências na azulejaria tradicional, que lembra a portuguesa, mas com referências brasileiras”, explica.

O nome da marca prestes a sair do forno é Casa Pampulhana. A referência à região que é Patrimônio Cultural da Humanidade pelo conjunto arquitetônico da Lagoa da Pampulha é também algo pessoal. Foi o endereço residencial de Mancini, dos 11 anos de idade até pouco antes de se casar e continua sendo o de seu ateliê. “Foi lá que aprendi a fazer azulejos, praticamente a 100 metros da Igrejinha de São Francisco, a relação é muito forte”, diz. Além da marca Casa Pampulhana, ele também pretende se dedicar a azulejos pintados à mão, algo mais figurativo, um outro lado que também é dele.

À pergunta se alguma vez teve vontade de sair do Brasil e morar em outro lugar, ele responde firme: “Daqui eu não saio. Esse momento vai passar. Cedo ou tarde, vai passar”.

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