Tendências: das inclinações amorosas à prospecção do futuro.

Envelhece mal o futuro, sempre?

Ana Martins Marques

I. Tendência: uma modalidade particular do desejo

Todos nós já utilizamos a palavra tendência de alguma forma, seja para falarmos sobre uma determinada escolha ou para relatar uma novidade, em geral, relacionada à moda. O uso do termo foi banalizado e incorporado ao nosso cotidiano. Entretanto, apesar da simplificação quanto ao uso cotidiano do termo, a palavra guarda em sua origem etimológica uma potente narrativa histórica sobre os nossos costumes ocidentais. No cerne da palavra contém uma projeção de futuro e, muito embora, que tal acepção tenha uma grande carga de incerteza, ela nos propicia pensarmos em estratégias para imaginar cenários possíveis com relação ao porvir.

De acordo com o pesquisador Caldas (2004, p.23), a palavra tendência deriva do latim tendentia como particípio presente e nome plural do verbo tendere. No passado, seus significados sugeriam “tender para” ou “ser atraído por”. Para Caldas, a palavra é prenhe do sentido de alteridade porque uma atração só pode ser exercida em alguém quando ela está diante de algo ou de alguém. Dessa atração, surge a ideia de uma inclinação que nos leva a movimentar nosso olhar, nosso corpo ou o nosso desejo em direção ao objeto e a pessoa observada.

A palavra tendência torna-se na passagem do século XII e do século XIII associada à pulsão escópica, isto é, ao nosso desejo de olhar pelo fato de sermos inclinados pela paixão do desejo de ver. Tal sentido, foi gradativamente associando à emergência do romance burguês e evidentemente ao surgimento do fenômeno da moda, enquanto uma manifestação social que nos leva a desenvolver uma certa atração alicerçada por uma moral estética temporal e histórica. Logo, a palavra tendência também é recoberta por uma dimensão intersemântica e interdisciplinar, pois ao instrumentalizarmos o seu uso, ela vai atualizando-se em outros campos e em diferentes áreas.

É curioso observar que as primeiras formas de utilização da palavra estavam associadas às expressões do romance cortês e do sistema da moda, então contemporâneos em sua emergência. O uso da palavra adquire as suas primeiras conotações, tal como a moda, num momento de profunda transformação cultural, de mudanças de cunho político e econômico. Poderíamos, então, propor um ponto de partida inicial para pensarmos o diálogo entre a palavra tendência e a moda a partir da esfera da representação do Eu e de sua construção identitária na narrativa literária. Dentre as várias exposições a esse respeito, poderíamos destacar a nova experiência que se apresenta no campo da construção social com a ideia de individualidade. A percepção de si exprime claramente como a  palavra tendência porque revela um certo modo de agir ou de escolher conforme a sua orientação estética temporal. A evolução do uso da palavra só foi possível por causa do entendimento temporal da noção de moda. Ademais, a emergência da noção de indivíduo introduz o aspecto moderno do termo.

 Nessa linha de pensamento, podemos observar como as mudanças de costumes delineavam um novo sentido para os signos com os quais o sujeito, em seu modo de agir e de se comportar, construía o seu processo de comunicação, a sua expressão corporal e a sua maneira de se relacionar com o mundo externo. As tendências refletiam como um determinado grupo de indivíduos constituíam uma certa repetição de suas ações a fim de influenciar e exercer uma profunda atração em outras pessoas. A atração exercida era fundamentada pelo movimento da mímesis, que os levava a imitar, reproduzir ou adotar ações que os engajava num processo de transformação para aderir às mudanças em seus modos de agir ou de se comportar. Tal influência exercida sobre o olhar dos outros é alicerçada pela atração estética, atração que modifica os modos de percepção.

II. Tendência & Moda: o movimento das paixões no tempo

O mecanismo que impulsionava tais transformações, foi compreendido por moda. Teóricos como Baudelaire, Simmel, Veblen, Sapin, Benjamin, Barthes, Sennet etc tentaram compreender os processos de difusão de determinadas tendências pelo sistema da moda. Assim, vários estudos indicaram diferentes modus operandi  da difusão das tendências. Para sociólogos e antropólogos a difusão das tendências poderia ser explicada pelo movimento de imitação e distinção, a partir do qual poderia diferenciar em camadas aqueles que antecipavam as novas orientações dos costumes e gostos estéticos, as pessoas que iriam iniciar o processo de mímese e os seguidores retardatários que fariam parte de uma massa. Tal orientação esteve por muito tempo relacionada a divisão das chamadas classes sociais: a aristocracia  como inovadora, os burgueses como desejosos de uma imitação que modificaria o seu status quo para se aproximarem da corte e por fim a massa que teria acesso as informações dessas novas tendências com uma certa diferença temporal. O que podemos compreender que os agentes inovadores eram responsáveis por delimitar o passado e o presente. Consequentemente, eles marcavam uma diferença acentuada nos hábitos que diferenciava a tradição da modernidade.

Por muitos anos, a relação entre as tendências e o seu sistema de difusão, nesse caso, o fenômeno da moda foi compreendido pela teoria da rivalidade entre as classes sociais. No entanto, outros autores têm pensado as tendências e seu processo de difusão pelo fenômeno da moda, enfatizando a representação ficcional do sujeito no espaço do texto. Por isso, a cultura literária seria um outro campo de proposição para transformação cultural do indivíduo moderno.

As tendências eram, portanto, uma relação estabelecida entre o sujeito e o alvo de seu investimento afetivo. Segundo algumas informações históricas, em sua origem, a palavra tendência remonta a cultura Troubadour  cavalheiresca medieval. Entre os séculos XII e XIII, a palavra remontava a mudança cultural burguesa porque o uso da palavra da palavra esteve associada à cultura literária em ascensão. O Romance da Rosa foi transcrito em poesia pelos poetas franceses Meun e Lorris, mas a sua origem é desconhecida. Para alguns estudiosos, a origem etimológica da palavra tendência estava associada a ação de inclinar o corpo em direção a algo que suscitava atração do indivíduo[1].

[1] Para aqueles que desconhecem o tema, vale a pena a leitura do texto. A transcrição do Romance da Rosa foi iniciada no século XV: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k51527/f6.image acesso 25/1/2020.

O Romance da Rosa era um jogo de declamação de poemas nas cortes no qual dois trovadores disputavam a atenção de uma mulher. Durante a declamação dos poemas, os trovadores “cortejavam” a sua pretendente  perfomatizando o amor ideal. Por isso, a mulher recebia frases gentis, o trovador era extremamente polido e gentil, além de seus gestos, os participantes do jogo idealizavam a sua aparência por meio de jogo lúdico da estetização do self e da artificialidade da expressão do Eu no espaço social. Em alguns relatos sobre a história da moda, essa ação foi responsável por desenvolver uma nova relação com a imagem do si no espaço social. As pessoas se vestiam para seduzir, elas buscavam uma tecnologia da existência para aperfeiçoarem as relações sociais. O termo tendência seria decorrente da ação dos corpos se inclinarem no jogo de sedução do Romance da Rosa. Ainda, há a ideia de que ao fim do jogo, a dama jogava uma rosa ao pretendente que a seduziu por causa de seus mais belos gestos e versos. A ação de inclinar o corpo diante do trovador vencedor apresentava a ideia de inclinação do gosto estético pelo prazer dos sentidos. O termo tendência seria, para alguns historiadores, derivado dessa ação de “inclinar-se para”… seria uma acepção literal da atração amorosa. Valeria, então, contextualizarmos esse mito do amor cortês em um tempo e em uma sociedade no qual os casamentos tinham conferiam status e uma relação de poder ou mercantil. A tendência ao amor era um apontamento de um desejo de mudança dos costumes, algo que viria a se concretizar no âmbito das sociedades democráticas.

III. Vetores simbólicos da estética da sedução

Gilles Lipovetsky, em O Império do Efêmero (1989), se refere a uma profunda força que transforma a unicidade dos seres e o imaginário em torno da representação do indivíduo. Encontramos em Lipovetsky (1989) uma atenta observação do jogo de teatralidade do si ao relatar a estética da sedução. Para Lipovetsky, os novos ideais da personalidade singular são difundidos a partir dos mecanismos do fenômeno da moda, e pelo processo de sua representação no texto literário. Os primeiros romances literários mostram como as tendências da moda acentuam a estilização do si e a afirmação da identidade mundana do  uomo singulare. 

No final da Idade Média, precisamente, inúmeros são os signos que dão testemunho de uma tomada de consciência inédita da identidade subjetiva, da vontade de expressão da singularidade individual, da exaltação da individualidade. Nas crônicas e memórias, a preocupação de marcar a identidade daquele que fala aparece numa forma canônica: Eu, seguido do nome, sobrenome e qualidades daquele que fala, nas obras poéticas intensificaram-se as confidências íntimas, a expressão dos impulsos do eu, instantes vividos, lembranças pessoais. O aparecimento da autobiografia, do retrato, e do auto-retrato ‘realistas’, ricos em detalhes verdadeiros, revela igualmente, nos séculos XIV e XV, a nova dignidade reconhecida naquilo que é singular no homem, embora em quadros ainda muito amplamente codificados e simbólicos.”[2]

A explicação que Gilles Lipovetsky nos oferece para o estabelecimento do fenômeno da moda nas sociedades modernas se ancora no entendimento de como outras forças e vetores difundiram os seus valores simbólicos. Para o autor, a consagração da prática hedonista da moda institui uma ruptura radical com a ordem do tempo da continuidade histórica da tradição. Esta fratura nos possibilita perceber quais foram as mudanças que substituíram os antigos “modos” de vida por novos “modelos” de existência. Como vemos, as substituições de uma ordem do passado pelas novidades do presente coadunaram o conceito de moda ao sentido do “moderno”. Dessa maneira, as transformações do sistema da moda encontraram um solo propício para a sua difusão na cultura cavalheiresca e cortês do fim da Idade Média.A intensificação e a precipitação na procura dos gozos do mundo duplicaram-se em um processo de estilização das normas de vida e dos gostos. A emergência da moda não é dissociável da revolução cultural que se inicia, na virada dos séculos XI e XII, na classe senhorial, com a promoção dos valores corteses. O ideal de vida cavalheiresca sofreu um aggiornamento: à exigência tradicional de força, de proeza e de largueza acrescentaram-se novas normas que exaltam a idealização da mulher, o bem falar, as boas maneiras, as qualidades literárias, a preciosidade galante. O cavaleiro se fez literato e poeta; o amor da bela linguagem e depois o dos belos objetos ganhou os círculos mundanos. Foi desse lento trabalho de civilização dos costumes e dos prazeres, desse novo ideal estatizado e refinado que saiu a moda; ela de algum modo preparou-se historicamente mais de dois séculos antes, com o advento do espírito cortês competindo em poesia e delicadeza preciosa. Como arte das nuanças e refinamento das superfícies, a moda prolonga, paralelamente à paixão pelos belos objetos e pelas obras de arte, essa aspiração a uma vida mais bela, mais estilizada, que surgiu por volta de 1100.[3]

[2] LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: A Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p.59.
[3] Idem, p.62-3.

Dentre todas as abordagens dos processos de difusão e instauração das tendências pelo sistema da moda na sociedade moderna, a exposição de Gilles Lipovetsky nos é cara porque adentra as sutilezas dos costumes no que concerne não só ao vestuário, mas também a uma atenção delicada à linguagem. A pesquisa de Lipovetsky analisa o deslocamento da linguagem oral, presente na concepção cavalheiresca do amor, para a linguagem poética. A celebração lírica do amor enobrece a linguagem cotidiana iniciando a “poetização do cortejar”[4] no qual a linguagem vulgar é excluída em favor de uma exaltação galante.


[4] NELLI, René. L’Érotique des Troubadours, citado porLIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: A Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas. São Paulo: Cia das Letras, 1989, p.65.

Segundo Mara Rúbia Sant’Anna, em “Amor Cortês e Moda: A construção de um Outro Mundo Social” (2008), as mudanças dos costumes a partir do século XII exigiram a criação de uma elaborada etiqueta cortesã. Esta ordem de mudança diz respeito aos modos de vida e de partilha de experiências num pequeno espaço domiciliar, no qual o amor cortês tornava-se uma espécie de “disciplinarização” do comportamento dos cavalheiros. O amor cortês atuava como uma regra que continha as paixões ganhando uma maior atenção no espaço da ficção literária. Os artifícios estéticos do amor cortês manifestavam-se em diferentes gêneros como nos escritos épicos e na poesia cortês.

Image of the Garden of Pleasure, from Le Roman de la Rose
Figura 1- “O Jardim do Prazer” – Engelbert II, Bruges, 1490-1500.
Iluminura do Roman de la Rose de Guillaume de Lorris e Jean de Meun

Como ilustração, podemos retomar as discussões sobre o famoso poema Roman de la Rose[5], que fora qualificado como didático por destinar-se a ensinar as regras da galanteria nas cortes. O poema tinha como objetivo iniciar um jogo no qual o cavalheiro intentava atrair a atenção de uma dama da corte por meio da junção dos belos versos à bela aparência. A partir de uma narrativa onírica o poema apresenta alegorias que discorrem sobre os sentimentos do amor, da paixão e da sedução contrapostos à lógica da razão[6].


[5] SANT’ANNA, Mara Rúbia. “Amor Cortês e Moda: A construção de um Outro Mundo Social”. In: MODAPALAVRA, Ano 1, Nº1, Janeiro-Julho 2008, pp.52-66.
[6] Cf. WILLEMART, Philippe. A Idade Média e a Renascença na Literatura Francesa. São Paulo: Annablume, 2000, p.26.

A transcrição do Romance da Rosacontribuiu para pensarmos a representação das tendências comportamentais da sociedade na literatura, analisando a sintaxe dos seus elementos tangíveis e intangíveis pelo fenômeno da moda. As iluminuras enunciam como os artifícios estéticos do amor cortês associam-se intimamente à gênese da moda. Nesse ponto do texto, nós podemos utilizar uma importante distinção entre as tendências e a moda. As tendências aqui suscitam as transformações iniciais de um comportamento no espaço social, elas apresentam um sinal inicial de algumas mudanças em épocas de transição. A moda seria a apresentação dessa mudança sendo adotada por um maior número de pessoas no espaço social. Estamos diante de novas tendências quando percebemos uma pequena alteração nos gestos e na percepção estética de um determinado grupo. A moda seria portanto a materialização dessas mudanças a partir da estilização da aparência e dos gestos das personagens representadas a partir da expressão coletiva  do novo modo em que o sujeito moderno constrói sua relação com o olhar do outro.

Cabe ressaltar aqui, a importância da transformação do vestuário para os gêneros como uma tendência no Romance da Rosa (XII). É exatamente nesse momento que se instaura o dimorfismo sexual, intensificando a construção identitária das personagens: a aparência masculina tornara-se viril e seu vestuário tendia a enfatizar a força do dorso e falo; já o vestuário feminino, ressaltava os aspectos da maternidade, valorizando o ventre e o seio.

As iluminuras que acompanhavam os antigos poemas trovadores apresentaram a primeira relação intertextual entre a moda e a literatura porque indicavam a transposição de uma cultura da aparência e de uma cultura da poesia oral da corte para o espaço do texto. Essas imagens explicitavam como a transformação da relação do sujeito com o mundo fora transcrita para o campo poético. Como afirma Daniela Calanca, em História Social da Moda (2002), a construção identitária das personagens na literatura serviu-se da moda para instaurar uma ligação entre o signo e o sentido, entre a natureza do self da personagem e o seu entorno.

Nessa direção, portanto, as roupas, os objetos com os quais cobrimos o corpo, são as formas através das quais os corpos entram em relação com o mundo externo entre eles. O corpo revestido pode ser considerado, substancialmente, uma “figura” que exprime os modos pelos quais o sujeito entra em relação com o mundo.[7]

As tendências comportamentais materializadas pelo fenômeno da moda no século XII e no texto literário representam o processo de transformação cultural. Dessa forma, é importante que nos lembremos das citações literárias que enfatizam a metamorfose dos corpos pelo vestuário, a transformação psíquica das personagens pela vivência em determinados espaços sociais como uma celebração do novo Zeitgeist burguês. Quando observamos o sistema indumentário presente no texto literário, nos deparamos com uma narrativa mais abrangente sobre a história e a percepção do tempo pela personagem.

Podemos então associar tais considerações à colocação de Julia Kristeva em seu livro O Espaço do Texto (1984), pois as primeiras manifestações literárias tinham por objetivo impor à modernidade a noção de “literatura” e, portanto, queriam introduzir nos livros uma aspiração às alegrias terrenas e aos prazeres de jogos mundanos. A presença da iluminura na poética mundana contribuiu para o processo de dessacralização do livro. A autora afirma que nesse momento o livro se fez romance e passou a representar o discurso oral transcrito do espaço social para a narrativa literária.

O fim da Idade Média, embora valorizando a fonética ao introduzir no texto cultural o espaço (burguês) da feira, do mercado, da rua, caracteriza-se igualmente por uma maciça penetração do texto escrito: o livro deixa de ser um privilégio de nobres e eruditos e democratiza-se. De modo que a cultura fonética pretende ser uma cultura escritural.[8]


[7] CALANCA, Daniela. História Social da Moda. São Paulo: SENAC, 2008, p.17.
[8] KRISTEVA, Julia. O Texto do Romance. Lisboa: Horizonte Universitário, 1984, p.162.

A “imagem discursiva” foi o elemento responsável por encadear diferentes narrativas no espaço do texto. Como afirma Kristeva, a literatura romanesca foi responsável por introduzir uma nova escrita textual com características fonéticas distintas. A apreensão da linearidade das imagens da escolástica pelo romance introduziu no livro uma perspectiva em três dimensões, reproduzindo dessa forma a realidade do mundo profano. Essa diferente composição do romance inseriu na narrativa literária fraturas e intervalos, criando a partir de então uma nova percepção da instância temporal no texto.

Ms 1126-1127 : Roman de la Rose. Le roman de la Rose, par Guillaume de Lorris et Jean de Meung
Figura 2- Iluminuras do Roman de la Rose, Guillaume de Lorris e Jean de Meun (1126-1127) Acervo da Biblioteca Nacional de Paris

Na exposição de Julia Kristeva torna-se claro a maneira como o romance gradativamente assimila o enunciado oral da cultura burguesa. As transcrições e descrições dos produtos da feira, da cultura de troca e da pluralidade das práticas sociais refletiam um novo panorama da cidade do texto literário. Uma das questões essenciais para compreendermos a inserção das tendências e da moda no texto literário será decorrente dessa nova percepção do real. A captura dos diferentes modos de vida que transitavam entre a corte e a cidade são elementos referenciais para pensarmos a polifonia na narrativa literária.

Na medida em que se diversificavam as vozes presentes na narrativa eram desconstruídas a representação dos mitos femininos da poesia cortês. Novas personagens foram celebradas, assim como os novos objetos e os novos costumes. Essas construções rítmicas do tempo narrativo corroboram para que possamos perceber a representação das novas tendências da moda no texto literário do romance burguês.

No próprio nascimento do romance encontramos a voz como designação do comércio. Eis alguns exemplos da penetração dessa publicidade vocal da cidade medieval no texto de Antoine de La Sale. Primeiro, Saintré passa em revista todos os comerciantes da cidade, com as suas mercadorias (p.53&sg.). Numa longa conversa com a Dama, mostra-se um verdadeiro agente publicitário do vestuário (p.57). E, mais adiante, nos enunciados do actor: Il portoit un tresbel chappelet de diverses violectes, lui et son destrier houssez d’um três riche veloux cramoisys, velluté et broichié d’or, tous fourrez de martres soubelines…(p.153),tous vestus de robes neufves et appareilliez, et devant lui cinq tres beaux destriers, dont lês iiij estoient houssez de paremens de veloux figure, au blason de ses armes chargié d’orfevrerie, c’est assavoir a um buef rampant de gueulles, corné et ongglé de sable, et sur chascun son tresbel et gent paige richement abilliez (p.152-3).[9]

[9] Idem, p.168

Interessa-nos afirmar que a multiplicidade de vozes implica, então, uma relativa apresentação das mudanças do tempo social. Como conclui Kristeva, a aparição de novos tipos sociais e os “gritos da rua” tornam legíveis no texto literário as mais variadas interlocuções como, por exemplo, o diálogo entre a literatura e a história dos costumes, a relação entre expressão oral e texto.

Considerações Finais

Intentamos observar nesse artigo a origem etimológica e a implicação inicial do sentido da palavra tendência em nossa sociedade. Apontamos quais foram as transformações que apareceram no tecido social que puderam nos reportar os primeiros sentidos de uso da palavra tendência como um sinal para o regime de transformação e mudança na sociedade que puderam indicar o surgimento do fenômeno moda. Assim sendo, uma vez que é diversificada a polifonia narrativa, há uma transformação na representação e construção das personagens.

É interessante observar como a diversidade de subjetividades torna complexa  a representação do sujeito no texto de ficção. A partir do ponto de vista de Julia Kristeva, podemos observar como se transformam as configurações da subjetividade da formação discursiva na medida em que há um reconhecimento da diferença. O reconhecimento do “outro”, a introdução de um memorialismo que narra “o dentro” e “o fora”, tornam-se recursos importantes para apresentar uma nova maneira de percepção do tempo e de suas transformações no texto literário.

A relação intertextual entre o sentido da palavra tendência e a importância do fenômeno da moda para a sua difusão, pretendemos apresentar como o primeiro momento de exposição da descrição do “Eu” encaminhou-se posteriormente para um processo de percepção do “Outro” no tanto no espaço social quanto no campo da ficção literária.

São esses vestígios mnemônicos presentes no romance burguês que orientaram o nosso olhar para tentarmos compreender a nova dinâmica presenteísta da narrativa das tendências sociais. Pois as tendências são os vetores que nos indicam para as mudanças do futuro. As tendências são índices das transformações vindouras pelas quais somos atraídos, elas são a linha teleológica do nosso porvir. Por isso, a importância de sua análise se deve ao fato de sabermos quais serão as melhores estratégias adotadas para enfrentar os desafios de futuro e do futuro. Algo que nos permita inclinar os nossos afetos àquilo que nos permita atravessar o tempo vivendo as incertezas alicerçados por uma ética da inovação no qual o presente envelheça melhor que o passado para que todos possamos nos apaixonar pelo nosso próprio futuro. Pois cada geração deve sonhar a geração vindoura.

Referências

BARTHES, Roland. Sistema da Moda. São Paulo: EDUSP, 1979.

CALANCA, Daniela. História Social da Moda. São Paulo: SENAC, 2008.

CALDAS, Dario. Observatório de Sinais. Rio de Janeiro: Senac, 2004.

KRISTEVA, Julia. O Texto do Romance. Lisboa: Horizonte Universitário, 1984.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: A Moda e seu Destino nas Sociedades Modernas. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

PIÉGAY-GROS, Nathalie. Introduction à L’Intertextualité. Paris: Dunod, 1996.

SANT’ANNA, Mara Rúbia. “Amor Cortês e Moda: A construção de um Outro Mundo Social”. In: MODAPALAVRA, Ano 1, Nº1, Janeiro-Julho 2008, pp.52-66.

WILLEMART, Philippe. A Idade Média e a Renascença na Literatura Francesa. São Paulo: Annablume, 2000.

**Angélica Oliveira Adverse

 Professora Adjunta da Escola de Belas Artes / UFMG e do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade do Estado de Minas Gerais. Doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes (UFMG) com estágio no Instituto ACTE, Paris I – Sorbonne. Desenvolveu sua pesquisa de pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais. Atualmente, desenvolve pesquisas analisando as relações entre o sujeito e a cidade a partir das relações entre a Moda, a Arte e o Design. As suas análises teóricas perpassam a história, a estética e a filosofia da arte. Publicou os seguintes livros: Moda: Moderna Medida do Tempo (Editora Estação das Letras e Cores, 2012) e Imagens São Espelhos (Edição. de autor, 2013). Recebeu diversos prêmios, tais como SIFA (1996) -Toronto e Prêmio CAPES de Tese (2017) pela defesa da melhor tese na área de Artes no Brasil.

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