Keith Haring e a Bahia

Documentário mostra como ícone da pop arte encontrou em um vilarejo brasileiro espaço para se inspirar e desenvolver simbologia própria

Insta: KEITH HARING

Ícone da pop art, Keith Haring é conhecido no meio artístico e nas artes gráficas, mas muitas pessoas que já viram o seu trabalho não sabem quem ele é. Haring, que nasceu em 1958 e morreu precocemente em1990, surgiu como parte da vibrante cena artística do centro da Nova York dos anos 1980. Ele é reconhecido por seus, enganosamente simples, ícones inspirados em desenhos animados. As imagens do artista combinam ideias e técnicas do grafite e da pop art.

Conhecido inicialmente pelos desenhos que fazia aos milhares, no metrô de Nova York, ele encontrou aí uma maneira de trabalhar com os grafiteiros que ele admirava sem copiá-los diretamente. Com essas obras não assinadas e também pela performance pública, se tornou um fenômeno da mídia.

Acontece que, à medida que a fama cresceu, aumentou também o desejo por seu trabalho e ele parou de produzi-los no metrô quando começaram a ser roubados tão rapidamente quanto eram feitos. Keith Haring desenhava em qualquer superfície disponível, indo de capotas de táxi, móveis, painéis de construção e até roupas.

A mudança da figura da contracultura para a estrela pop tem a ver com a influência de Andy Warhol, que Haring conheceu em 1983. Warhol estabeleceu um precedente sobre como um artista poderia se envolver com a cultura popular e a atividade comercial, mantendo a integridade de seu trabalho. 

As imagens de Haring ganharam uma segunda vida através de roupas, capas de discos e mercadorias vendidas a partir de suas célebres boutiques Pop Shop. Ele ampliaria ainda mais seu alcance por meio de colaborações com artistas como Madonna e Grace Jones e o coreógrafo Bill T Jones.

A história de Keith Harring tem mais detalhes importantes, como o reconhecimento internacional pelas exposições no Documenta 7, em Kassel, na Alemanha (1982), na Bienal de São Paulo (1983), na Bienal do Whitney Museum de Nova York (1983) e em Bordeaux (1985). Seus desenhos eram vistos no metrô de Nova York e no Muro de Berlim, três anos antes de sua queda.

Além de pintar murais em vários países, pintou painéis luminosos em Times Square, cenários de peças de teatro, campanhas publicitárias e desenvolvimento de produtos. Ao longo de sua carreira, dedicou grande parte de seu tempo à elaboração de obras públicas, que muitas vezes transmitiam mensagens sociais. Produziu mais de 50 obras públicas, em diversas cidades do mundo, muitas delas criadas em prol de instituições de caridade, hospitais, creches e orfanatos.

Em 1988, em entrevista à revista Rolling Stone, Keith declara que tem o vírus HIV. Em seguida cria o Keith Haring Foundation, com o objetivo de apoiar as crianças vítimas da AIDS. Em 1989, Keith fez um de seus últimos trabalhos, um mural intitulado “Tuttomundo”, dedicado à paz e a harmonia do mundo, instalado na parede sul da igreja de St. Anthony, em Pisa, na Itália.

Um documentário recente mostra sua ligação com o Brasil, especificamente com Serra Grande, na Bahia. Neste vilarejo que não tinha luz ou água encanada na época, ele “desapareceu” do mundo para ficar desenhando na areia da praia e pintando árvores e casas de pescadores. Encontrou ali um refúgio para o seu estilo jet setter de celebridade do mundo das artes.

O documentário, episódio da série Geografia da Arte, dirigida por Guto Barra e Tatiana Issa, mostra que foi em Serra Grande que Keith Haring encontrou a mudança de ritmo que tanto precisava para seu trabalho. Entre os que contam essa história está o também artista americano Kenny Scharf, que acompanhou Keith durante as visitas à Bahia. Ao lado do restaurador Alex Neroullas, Scharf recria um mural pintado pelo amigo no chão de uma cabana da época e, ao longo do processo, o espectador entende melhor o trabalho e a relação de Keith com o local.

O período na Bahia ajudou Keith a desenvolver uma simbologia própria, além de inspirar uma série de desenhos que desafiava linguagens e de influenciar trabalhos com temáticas infantis, devido à convivência que teve com crianças que viviam em Serra Grande. Por fim, Scharf também analisa o impacto da crise da AIDS (doença que vitimou Keith) na cena das artes de Nova York no fim da década de 1980.

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