Jardim se descobre a cada passo

Agora em carreira solo, paisagista André Orsini teve do pai, o renomado Luiz Carlos Orsini, o aprendizado na prática

Insta: André Orsini 

Arquiteto e paisagista, o mineiro André Orsini terminou a faculdade em Natal, no Rio Grande do Norte. Durante o curso apaixonou-se pela disciplina que destaca seu pai na profissão, retornou para Belo Horizonte assim que se formou para trabalhar com ele. Luiz Carlos Orisini é considerado um dos gurus do paisagismo no Brasil, assinando obras como o Inhotim e muitas outras de grande porte que mostram a excelência de seus projetos.

Com ele, André aprendeu praticamente tudo o que sabe sobre a profissão. “Quando eu ainda estava em Natal, comentei com ele meu entusiasmo e disse que queria comprar alguns livros de paisagismo. Ele me respondeu que, se eu quisesse mesmo aprender, tinha que ser na prática.”, comenta André, lembrando que na faculdade o enfoque dado à matéria é destinado à teoria, não é nem voltado, nem incentivado à atuação.

“Meu professor na vida, foi ele. A noção de composição, o conhecimento das plantas, dos biomas e climas são aprendidos na prática”, confessa. Pergunto sobrea responsabilidade de trabalhar na mesma área que o pai, pela importância de seu nome. André responde que essa responsabilidade existe, assim como a troca entre ambos. Além de conversas frequentes, ele comenta que Luiz Carlos Orsini tem total liberdade para passar a execução de um projeto para ele. “O padrão de execução é o padrão dele e como trabalhamos juntos durante 10 anos, essa ação se torna mais fluida”, diz.

Durante a pandemia, André Orsini resolveu que estava na hora de encarar a carreira solo.” Trabalhar sozinho tem sido uma satisfação. Tenho minha autonomia, faço meu tempo, que sobra para eu exercitar minha criatividade. Antes, tinha muitas tarefas que iam além do projeto, agora, quem conta comigo sou eu e tenho que fazer tudo certo”, comenta.

Ele explica que trabalhar como paisagista significa estar sempre em contado com fornecedores, às vezes, durante uma viagem de carro, parar no meio da rota para descobrir um viveiro , trocar ideia com o proprietário. “Não adianta trabalhar só com livros, eles têm todas as plantas que existem, mas não são todas comerciais. Não é assim que funciona”, explica.

André fala sobre como o trabalho do paisagismo está alinhado com arquitetar, como as linhas da arquitetura são importantes nesse diálogo entre a construção e o entorno. “O paisagismo funciona como complemento da arquitetura e, às vezes, para reparar situações não previstas”, comenta. Desde que começou a trabalhar, para ele, o mais forte é quando se coloca a primeira planta no terreno, muda completamente a paisagem. “O jardim humaniza a arquitetura e esse é o maior ganho porque além das cores, ele dá vida. Diferente da arquitetura que é inerte, ele é fluente”. Quando o projeto está concluído e lhe perguntam se está pronto, ele costuma responder que não, que está entregue, mas precisa ser cuidado e jardim é algo sempre mutável. “A base de um jardim bem feito é a estrutura e o traçado. A estrutura são as árvores, o traçado é o caminho, o formato dos canteiros. O desenho continua, mesmo que as plantas mudem com o tempo”, ensina.

Obra de arte viva

Escolhemos publicar um jardim que André fez com o pai, Luiz Carlos Orsini, para uma casa de campo em Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte. Em um terreno de 20 mil m2, não foram plantadas palmeiras, mas uma grande quantidade de árvores e maciços herbáceos.

Trata-se de um jardim conceitual. Na fachada principal há conjuntos de embaúbas inseridos sobre grandes ondulações de grama amendoim. A projeção da sombra dessas árvores na fachada no final de tarde confere um efeito todo especial ao projeto paisagístico.

Paralelamente, um bosque de árvores remanescentes e introduzidas se desenha na parte baixa do terreno, até chegar à capela em concreto e vidro. A geometria é marcada por grandes áreas livres, mescladas com maciços de arbustos e árvores que se harmonizam com a residência.

O projeto utiliza muitas ondulações e grandes movimentos de terra, redesenhando a topografia original, além de quase uma centena de embaúbas, ipês, paineiras, paus-ferros e um monte onde oliveiras que sacodem suas copas ao balanço do vento.

FOTOS: Daniel Mansur 

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