Efe Godoy

A artista e seu planeta fantástico, permeado de tons de rosa, convidados azuis e outros coloridos: a vida é leve

Insta: Efe GodoyCelma Albuquerque Galeria de Arte

Efe Godoy pode pintar uma parede, um micropapel, fazer um filme, dar novo significado a um objeto. Não importa o quê, o tamanho ou quando. Em qualquer obra sempre haverá um pedaço dela, de seu universo mágico, que procura alimentar sem parcimônia com aquilo que lê, escuta e assiste. Efe Godoy pode também não encostar no pincel, mas, nesse dia, continuará imbuída no espectro do fazer e fazer e fazer e, um simples rabisco repetido em um caderno, pode, a qualquer hora, se transformar em um projeto futuro.

A artista flutua dentro de várias áreas porque gosta de explorar suas multiplicidades e, não dá para saber se ela come livros, engole filmes, se adoça ou se enlouquece com os sons de uma composição. O certo é que todas as iguarias que podem aumentar o apetite de sua imaginação estão sempre próximas: a literatura, o cinema e a música, bem como o exercício que a leva a mergulhar em memórias de infância e em fabulações espontâneas.

São muitos os escritores prediletos. Ela fala de Manoel de Barros, de sua potência na simplicidade e complexidade da palavra e de como também utiliza isso em sua arte. “Escrevo coisas que vão virar imagens ou a própria palavra vira um trabalho.” Efe se repete como Manoel de Barros se repete, como Bach se repete. Como um mesmo córrego se repete e varia entre as curvas e as pedras que encontra em seu curso, o que importa para Efe é atuar no desejo de demonstrar a liberdade que tanto preza.

No dia em que conversamos, por exemplo, me disse: “Hoje quero pintar grande”. Estava esperando uma tela em grande formato para isso. Já tinha arrumado a casa, limpado o cocô de Céu, a Lulu da Pomerânia com quem compartilha a casa/ateliê onde mora. Também tinha atendido duas pessoas que estão fazendo um documentário do qual ela faz parte e agora esperava a tela enquanto falava comigo pelo celular. “Ultimamente pintei muitas coisas grandes para a exposição no MARP de Ribeirão Preto, prêmio que recebi em 2020. Peguei um rolo de papel de 10m e os bichos foram crescendo mais que o meu tamanho”, diverte-se.

Efe nasceu em Sete Lagoas e se mudou aos 21 anos para estudar na Escola Guignard, em Belo Horizonte. O curso foi interrompido pela agenda de shows da banda de rock Absinto Muito, na qual era vocalista. De 2009 a 2016 os músicos fizeram diversos shows pelo país e até no exterior. “Durou cinco anos. A banda terminou como qualquer outro relacionamento que acaba”, lembra.

Depois desse período, a artista começou a investir mais em editais e salões e as artes visuais começaram a falar cada vez mais alto. “Quando entrei para a Guignard, pensava em ser ilustradora de livros infantis, mas a escola me mostrou outros caminhos”, diz a artista, que sempre se viu rodeada de lápis e mil canetinhas coloridas desde a infância. A mãe é professora estadual, alfabetizadora e, por isso, esses materiais nunca lhe faltaram para brincar. “Acredito que até hoje estou brincando, descobrindo algo novo todo dia e é isso que me motiva”.

Na sua formação, as descobertas continuam acontecendo, também através de vivências e residências no Brasil e no exterior. Algumas delas se deram nos últimos anos, como a Bolsa Pampulha 2015/2016, a residência artística no EAC- Montevideo_UY em 2018, residência Adelina SP, 2018, a Hemiencuentro Instituto Hemispheric NY University na Cidade do Mexico, 2019, e Mostra VERBO de performance Arte na Galeria  Vermelho – SP e, recentemente, a residência no ia – Instituto de Arte Contemporânea de Ouro Preto, dentro do Programa Emergencial de Residência Artística – iai.

Em casa, o trabalho nunca acaba. “Eu adoro isso, é a vida em ritmo de arte”. Quero saber como se sente com as redes sociais, que ampliaram muito sua visibilidade. Hoje, Efe Godoy tem mais de 50 mil seguidores no instagram e um canal no Youtube onde divide sua vida com o mundo, reunindo as linguagens da música, da performance, desenho e o desejo de hibridizar tudo. “Eu sinto que as pessoas estão aproveitando mais esse lugar virtual que se instaurou, porque não existe outra chance de a gente existir se não for desse jeito. Sou uma pessoa que compartilha muito e senti que as pessoas queriam saber do meu mundo”. 

E isso é bom, Efe? “É muito bom e é ruim também. As pessoas falam bem e falam mal. Como artista sou muito solitária, vivo meu trabalho no ateliê, fruindo a minha arte”, comenta, embora não negue a falta que tem sentido de sair, se distrair, ir ao teatro, ao cinema. Pergunto também se a superexposição nas redes sociais a incomoda. “Adoro, sou uma pessoa com ascendente em Leão, gosto dessa exposição”. Ela fala ainda das redes como uma ferramenta que pode impulsionar o trabalho de um artista. Mas faz ressalvas: “É algo que também pode te afundar se você não ficar esperta, como o mercado de arte, que te engole, mas de repente pode te cuspir”.

Finalizo questionando qual seria o caminho para não se abalar com isso. “No dia que eu quero só desenhar, eu fico só desenhando. Mas confesso que sou uma consumidora voraz de redes sociais”. Em seu planeta de sonhos, de tons de rosa e convidados azuis principalmente, Efe Godoy chega para nos ensinar que a vida pode ser mais leve, mais fluida e fantástica e também muito divertida.


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS PELA ARTISTA

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