Do banal à singularidade

Em (i)móveis, Porfírio Valladares propõe uma série com ‘construções’ genéricas concebidas a partir do que ele enxerga na cidade

Insta:  PORFÍRIO VALLADARESPARQUE DO PALÁCIO

Em Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino, Marco Polo descreve para Kublai Khan as incontáveis cidades do imenso império do conquistador mongol. E surpreende que, no livro, a cidade deixa de ser um conceito geográfico para se tornar um símbolo complexo e inesgotável da experiência humana. Na exposição que começa nesta quinta, dia 2, no Parque do Palácio, a inusitada série (i)móveis, do arquiteto e designer Porfírio Valladares, também há uma cidade imaginária e, nela, os edifícios foram transformados em cômodas, bufês e criados-mudos.

Porfírio cria uma singularidade entre seu trabalho com a madeira e com a marcenaria e sua vivência como arquiteto. “Eu nunca consegui desvincular a noção de que apartamentos são caixas dentro de caixas maiores – são gavetas”, comenta. Da produção original de 18 prédios/gaveteiros, nenhum é uma réplica de uma construção existente. Foram todos inventados, embora remetam à imagem de estilos de época que foram ou ainda são recorrentes na produção de moradias pelo mercado imobiliário.

No nome de cada “prédio”, uma fina ironia: Central Park, Fort Lauderdale, Michelangelo… Afinal, empreendedores imobiliários são mestres em arrumar nomes estrangeiros para ‘ilustrar’ seus lançamentos e assim, vender uma certa fantasia. Com esse complemento, reforça-se a crítica que o designer faz à produção imobiliária urbana, hoje repleta de edifícios anônimos, porém com nomes pomposos.

Cada móvel foi produzido com a técnica da marcenaria fina artesanal, explorando texturas e tons das estrias da madeira, o corte e o encaixe, os elementos vazados e os acabamentos perfeitos. Todos revelam a poética das obras utilitárias. Foram feitas em freijó maciço, lâminas aplicadas sobre painéis de compensado multilaminado, e lâminas de imbuia para fazer as vezes de vidro, todas encaixadas, coladas e envernizadas. Servem para guardar o que quer que seja, mas certamente reservam um espaço imaginário sem dimensão para os sonhos e as fantasias. 

A exposição chega a Belo Horizonte depois de passar por SP e fica em cartaz até abril de 2023, no Parque do Palácio, apresentando 10 peças que estarão à venda. 

Sobre Porfírio Valladares

Arquiteto e designer de móveis; mestre em Arquitetura e Urbanismo (2012) pela Universidade Federal de Minas Gerais e graduado em Arquitetura e Urbanismo (1980) pela mesma instituição. Especialista em Arte Contemporânea pela Escola Guignard (UEMG, 2003). Sua pesquisa acadêmica investiga, tanto na arquitetura quanto no design de móveis, as possibilidades construtivas da madeira.

De 2002 a 2011 foi professor na Universidade FUMEC, nos cursos de Arquitetura e Design de Interiores, e de 2002 a 2004 foi Professor Substituto no Curso de Arquitetura da UFMG. Possui experiência na área de Arquitetura, com ênfase em projetos residenciais e institucionais. Desde 1980 trabalha com design de produto, principalmente na área de mobiliário e complementos. Destaca-se, em ambas as áreas, por mostras e premiações nacionais e internacionais.

FOTOS – DANIEL MANSUR

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