Arte que conversa

Um encontro com Sérgio Machado e Francisco Nuk revela delicadezas, congruências e uma poesia infinita, presente no trabalho de ambos

Insta: Sérgio MachadoFrancisco Nuk

Sérgio Machado e Francisco Nuk. Um, o pai, o outro o filho. Ambos artistas. O ateliê de Francisco tem porta para a rua, no bairro Bomfim, tradicionalíssimo de Belo Horizonte, onde a tranquilidade nos faz pensar numa cidade do interior. É lá que ele cria as peças que já encantam um público cativo nas redes sociais, certamente ansioso, como nós estávamos, para ver de perto, talvez tocar, talvez sentir e cheirar a madeira desses objetos/obras de arte. Peças que poderiam estar entre os móveis de algum conto de realismo fantástico do também mineiro Murilo Rubião ou nas tramas e universos únicos do inglês Neil Gaiman.

Francisco Nuk tem o porte atlético não por acaso. Sempre amou o esporte, em particular o Rugby, pouco convencional por aqui, embora exista no Brasil desde 1891. Na arte, o trabalho de Nuk também foge de convenções: ele torce, encurva e enverga objetos de acordo com o que pede sua imaginação: uma cômoda ou cristaleira podem se identificar pelo conjunto das formas, mas não pela intenção, ou pelo inusitado que o artista emprega ao que faz, que precisam ser úteis apenas ao olhar e assim, ganham o caráter de obra de arte em seu estado único. “Ninguém pode definir o que uma obra é, a não ser ela mesma. A partir do momento em que fui entortando a madeira, eu me via nela. Humanizando a peça, eu não posso dizer, como criador, o que ela é. Ela mesma é que vai decidir”, reflete o artista.

Embora filho de artistas, o caminho da arte não veio como um capítulo que se encaixa com facilidade a uma história familiar. Foi chegando devagar. Se suas obras têm vida própria, talvez a tenha também a matriz, mãe desse fazer, a marcenaria, que o rondou, roçou sua vontade e sua energia por diversas vezes, entre as viagens que fez pelo mundo.

Seus primeiros contatos com a marcenaria fina foram na adolescência. Esse aprendizado, inclusive, fez com que ele fosse adiante do trabalho manual, do braço, da força física e da técnica que foi assimilando. Quando morou na Austrália, por exemplo, mergulhava em livros na biblioteca pública de sua cidade, estudando sobre a madeira, sobre instrumentos e sobre técnicas aplicadas.

Em 2018 resolveu que era no Brasil mesmo onde queria fincar raízes. Primeiro trabalhou com o pai, no ateliê dele, para onde iremos daqui a pouco. Depois criou seu próprio espaço, uma marcenaria/ateliê, reformada para ter a cara do dono, um lugar para se sentir bem. Aqui viemos conhecer o trabalho de Francisco Nuk, que ganhou asas e agora é representado pela Galeria Lume, em São Paulo e pela Radiante, que é um braço da Galeria Inox, no Rio de Janeiro e que certamente vai ganhar asas e voar para outros cantos.

Detalhes dessa história e de outras histórias de Francisco Nuk a gente continua a contar amanhã, dentro do projeto Ateliê Aberto. Antes, vamos sair pela porta, dobrar a esquina, subir alguns passos de uma rua íngreme para entrar na mesma construção por uma outra porta. Aberta, subimos uma escada e… uau!

Estamos agora no ateliê de Sérgio Machado. Na verdade, entramos e damos de cara para um amplo espaço aberto com vista para Belo Horizonte, com direito a casas, prédios e montanhas. Na lateral direita desse espaço, que parece encantado, uma grande porta de correr está aberta. É ali que Sérgio cria suas miudezas e suas grandezas, a partir de materiais diversos como a madeira, a pedra, o vidro, o aço, o plástico e o que mais puder traduzir sua imaginação em algo, embora concreto, onírico.

À pergunta básica: quando você virou artista, a resposta vem tão básica quanto: “Acho que desde que eu nasci. Nunca fiz outra coisa”, responde Sérgio, divertido. Inventor de criaturas como as Maleatas de Enalapril, essas e outras batizadas com nomes de remédio, que ganham vida pelas mãos do artista e se transformam em “seus brinquedos” ele concretiza em arte aquilo que o cutuca internamente. Curiosamente, muitos desses trabalhos não são finalizados ou demoram para ser. É o jeito que ele encontrou para tê-los, o maior tempo possível, por perto.

Sentamos ao ar livre para um café emoldurado pela vista à nossa frente. A conversa solta trouxe personagens de outras épocas, histórias do bairro, visões do mundo, da cidade e do bairro. Histórias e casos para um texto que não acaba mais e que mais tarde voltarão a esse espaço. Por enquanto me vem à mente e logo se imprime na faixa em branco da página um texto: Tudo quanto o homem expõe ou exprime é uma nota à margem de um texto apagado de todo. Mais ou menos, pelo sentido da nota, tiramos o sentido que havia de ser o do texto; mas fica sempre uma dúvida, e os sentidos possíveis são muitos. (Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol II. Fernando Pessoa)

Fotos: Gustavo Andrade – Arthur Andrade – Pedro Sales

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