A voz que bateu na porta

Muita gente ganhou sua porção de raio de sol ao assistir Mônica Salmaso pelas redes sociais. Em um ano de tanta notícia ruim, de tanta crueza, de tanta violência humana e ambiental, há também momentos de grande beleza.

Insta: Mônica Salmaso

Da porta pra dentro tá tudo bem? É assim que Mônica Salmaso começa a nossa conversa por vídeo. Do lado de cá, cada um no seu espaço, estávamos eu e os jornalistas Kiko Ferreira e Fábio Gomides. A gente queria falar sobre o projeto “Ô de casas”, um jeito espontâneo que ela encontrou para continuar cantando com os amigos sem sair de casa. Como ela diz, um “remédio” em tempos de isolamento social. Ela conta que, no início da pandemia sequer sabia fazer uma live.

“Ô de casas”, que não é propriamente uma live, já que cada um gravou na sua casa e depois ela e o marido, o músico Teco Cardoso, editavam tudo em um programa gratuito baixado na Internet, fez Mônica pular de uma atuação discreta nas redes sociais para 130 mil até meados de janeiro deste ano, quando conversamos. Entre os nomes de peso que figuram no projeto, Zélia Duncan, Chico César, Dori Caymmi, Guinga, Joyce e muitos outros. “Deu um quentinho no coração me encontrar com essas pessoas e teve um efeito muito bonito, de afeto, para quem assistia. Todo mundo começou a compartilhar os vídeos, como em um correio elegante de acesso musical”, comenta com a delicadeza que lhe é peculiar.

Ao mesmo tempo, com toda a beleza e sensibilidade que o “O de casas” oferecia para todos nós que estávamos do lado de cá das redes assistindo e se deliciando, queríamos saber um pouco da vida da cantora. Como ela encarou o início da pandemia, se o contato com a casa mudou muito, enfim, daí em diante a conversa foi fluindo gostosa, exatamente como é a voz afinadíssima de Mônica Salmaso. Saiu de um tudo: de reflexões sobre o momento, dos livros que leu, do prazer de dependurar roupa no varal, de moda ou o avesso dela e até de óculos.

Mala, cuia, celular e Ipad

A casa, onde ela nos “recebeu”, fica no interior paulista, em Sarapuí. Um refúgio onde ela, o marido e o filho elegeram para férias e finais de semana, quando a agenda de shows permitia. De uma hora para outra, virou endereço permanente desde março de 2020, quando resolveram trocar a vida de apartamento na capital, mesmo sem saber por quanto tempo ou o que iria acontecer dali em diante. “Foi tudo muito rápido. A gente se organizou para vir para o interior quando viu que a coisa ia pegar. Aqui é mais barato e a gente pode ficar confinado numa casa com quintal, é muito diferente de ficar num apartamento”, lembra. E assim foram. Ela, com um celular e um Ipad, entendendo que essa poderia ser a moradia deles talvez até julho ou agosto, imaginando que depois desse tempo, voltaria tudo ao normal. Só que não. “Eu tinha uma agenda linda de 2020, de coisas para fazer, show do Caipira (álbum lançado em 2017 e que lhe rendeu o prêmio de Melhor Cantora no Prêmio da Música Brasileira em 2018), show com orquestra, de duo, de trio, um em homenagem à Elizete Cardoso que a gente tinha acabado de montar. E aí era marca não marca, aquela dúvida, até perceber que aquilo não ia acontecer. No começo minha expectativa se tornou ansiedade, até que agosto chegou e eu decidi que era fim de papo. Entendi que show ao vivo só voltaria depois da vacina”.

Entra que a casa é sua, eu só quero ser feliz

Como aconteceu com muita gente, a relação de Mônica com a casa, mudou. “Nunca lavei tanto prato na minha vida”, diverte-se ao explicar que, como é o marido que cozinha, logo, as louças ficam por conta dela. Entre os afazeres domésticos, um ela destaca com mais ênfase e, claro, deixa a gente do lado de cá com o olhinho brilhando. “Eu adoro dependurar roupa no varal. É assim: se chover, você tem que sair correndo para tirar tudo e isso dá uma sensação de estar dentro da vida. Não é aquela coisa, tipo: ai, que saco, tenho que lavar roupa e tenho que trabalhar, não. Dependuro a roupa no varal e aí, de repente, vem um raio de sol e eu fico ali, observando. Não tem outra coisa, tem isso. É muito diferente.”

É por enxergar essa poesia, talvez, que as reflexões que Mônica Salmaso faz sobre 2020 são tão nobres. “Por um lado, parece que é um ano que se arrastou e não aconteceu nada. Todo mundo teve que repensar, ter medo de tudo, foi muito intenso. A vida virou dentro de casa. Não é só o lugar que você chega para assistir uma série, tomar um banho e dormir para, no dia seguinte, sair para trabalhar. A casa virou a vida e essa é uma percepção muito maluca, é um deslocamento que traz muitas consciências, do que você realmente precisa para ser feliz dentro da sua casa, do tanto que não você não precisa das coisas, da relação de afeto com o bioma que é a sua casa. Quem conseguiu criar essas rotinas, conseguiu criar formas emocionais de sobreviver. Isso é muito sério.”

Com que roupa? Com que óculos, meu Deus?!

Essa relação que a cantora conseguiu com a própria casa, de alguma forma, foi levada também para dentro das casas das pessoas com a exposição amplificada nas redes sociais. Pergunto se ela se preocupava em combinar a roupa com o cenário e ela me responde sem rodeios: “Eu comecei a reparar que essa história tem um lado humano, caseiro, que é como chegar e fazer uma visita, não é um show. Nas lives é diferente: tem maquiagem, uma preocupação maior, mas nos vídeos eu percebi que poderia ter um carinho, um cuidado, e percebi que dava pra minha roupa conversar com a estampa que o meu amigo estava usando na hora da gravação, mas era muito mais do que isso.”

Mônica é daquele tipo que se sente zero atraída por roupas feitas em larga escala. Quando descobriu a Casa Romilda, um ateliê de costura em São Paulo, praticamente refez tudo o que tinha. “Eu acho muito gostoso você ser autor, ou coautor na maneira de se vestir. Isso é lúdico”. Não por acaso, recentemente Mônica Salmaso foi escolhida para ser “embaixadora” da empresa mineira de óculos que se chama Zótika. “Quando vou a Belo Horizonte, duas coisas são lei: sempre escolho um voo que me permite ir direto ao Mercado Central, onde faço compras e almoço por lá e a outra é passar na Zótika. Sempre tive tara por óculos, desde a adolescência”. Diverte-se ao dizer que já usava óculos muito antes de ser uma necessidade. “A Zótika tem essa coisa de oferecer um produto super bem escolhido, em pouca quantidade, autoral. Eu passo horas escolhendo, minha identidade com a marca é total. Óculos geralmente é a primeira coisa que você vê em uma pessoa, então, representar ou ter uma parceria com uma ótica, só se for uma relação de muita identidade. Jamais aceitaria uma coisa dessas se não fosse dessa maneira. Estou me sentindo tipo na Disney”, brinca.

Página por página

Com Mônica Salmaso é assim: até o que nos leva a frivolidades traz surpresas que permeiam levezas e pesos consistentes e, assim, voltamos a outros conteúdos. Ela fala dos livros que leu nesse período, como o Olho mais azul, de Toni Morrisson, Olhos D’Água, de Conceição Evaristo, Torto Arado, de Itamar Vieira Júnior. Emociona-se ao falar de cada um. Fez também dois cursos com José Miguel Wisnick, um sobre Clarice Lispector e outro sobre Guimarães Rosa. “Não foi só reler e ler o que eu ainda não tinha lido, mas ser guiada pela figura do professor Wisnik foi lindo”. Mônica diz que demorou um pouco para dar conta de ouvir as más notícias do noticiário, ao mesmo tempo em que começou a ouvir muitas outras vozes que se fizeram presentes nesse momento. “Eu acho que, independente da vida que você tem, todo mundo ficou, em algum grau, vulnerável e isso trouxe a capacidade de mais empatia com vozes do que a gente chama de maiorias minorizadas. Eu acredito que o fato de todo mundo estar em alguma vulnerabilidade emocional tenham permitido aprofundar na empatia dessas causas. O meu espaço interno abriu para isso”, pondera.

Ela comenta que não é uma pessoa que lê rápido. “Não deu para ler todos os livros, nem ouvir todas as músicas, mas cada coisa que deu para fazer foi feita com muita intensidade, é que nem o raio de sol no varal. Aqui em casa, ficamos hipersensibilizados, qualquer coisa de arte que a gente viveu, que a gente pode absorver foi de muita intensidade emocional. Foi recebida, lida ouvida, assistida, vestida, tudo com muita intensidade. Eu nunca vou esquecer as aulas que fiz, nem os livros que foram lidos em 2020.  É algo para se guardar. Quando a gente de fato mergulha nessas coisas, elas tomam esse tamanho. Então um ano de tanta notícia ruim, de tanta dureza, de tanta crueza, de tanta violência humana e ambiental tem momentos de grande beleza que são esses em que a gente pode ouvir uma música ou ler um livro e mergulhar com o coração em cada uma dessas obras.”

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