Suave coisa nenhuma

No coração de Cascais, Museu Casa das Histórias, homenagem a Paula Rego, tem projeto assinado pelo arquiteto Eduardo Souto Moura

Insta: PAULA REGO

Na parte superior de Cascais, a caminho de algumas das mais belas praias do mundo, como Guincho, Praia Grande e Praia das Maçãs, está o museu Casa das Histórias, dedicado a Paula Rego, artista contemporânea portuguesa, que morreu aos 87 anos, no último dia sete de junho.

Inaugurado em 2009, ele é resultado da vontade e dos esforços da Câmara Municipal de Cascais e da própria pintora, que residiu longamente no Estoril.  É também ponto de passagem de milhares de turistas portugueses e estrangeiros, que o visitam para conhecer um pouco da obra de Paula Rego.

O espaço foi projetado pelo arquiteto Eduardo Souto Moura, vencedor do Prémio Pritzker 2011, e conta com 750 m2 de áreas expositivas, auditório, cafetaria, esplanada, jardim e loja.

O edifício faz uso de alguns aspectos da arquitetura histórica da região, que aqui é reinterpretada de forma contemporânea. Pode ser imediatamente reconhecido graças às suas duas torres em forma de pirâmide e ao vermelho utilizado na sua construção.

A terra e as árvores que existiam anteriormente no local foram incorporadas como elementos fundamentais, enquanto quatro alas, de diferentes alturas e tamanhos, compõem o edifício.  A parte interna tem 750 m2 de área expositiva projetada em tons neutros e pavimentada com o mármore azul-cinzento de Cascais. Nela é possível conhecer trabalhos de Paula Rego e perceber a força de seu legado.

Um legado de força, dureza e ternura

Toda força, dureza, ternura e rebelião do trabalho da pintora Paula Rego nunca foi segredo para ninguém. A artista era particularmente conhecida por suas pinturas figurativas repletas de tensão e emoção, tão bem utilizadas por ela como ferramentas de denúncia de mazelas sociais. Há obras que tratam do aborto ilegal, da mutilação de mulheres muçulmanas, da guerra no Iraque e, em muitas delas, o machismo e subjugação da mulher em relação ao homem estão expostos como uma ferida.

Em um Brasil em retrocesso, talvez soe estranho saber que Paula Rego já foi condecorada pelo governo de Portugal e pela Rainha Elizabeth II, além de ter recebido inúmeros outros títulos de reconhecimento durante a carreira. Entre julho e outubro do ano passado, o Tate Britain realizou a maior retrospectiva até então feita de sua carreira, com o objetivo de retratar ao público não somente a sua produção artística, mas também a sua história de vida. 

Sua obra começou a ser conhecida internacionalmente no final dos anos 1980, quando foi tema de uma grande mostra na galeria Serpentine, de Londres. No Brasil de outras eras, ela também ganhou uma grande retrospectiva há 11 anos, realizada na Pinacoteca, em São Paulo.

Na Bienal de Veneza, uma das mais tradicionais mostras de arte do mundo, que inclusive apresenta este ano um recorde de artistas mulheres participantes, Paula Rego tem uma sala especial dedicada à exposição de suas obras.

Paula Rego também buscou inspiração para a narrativa das histórias que conta com suas pinceladas em contos de fadas, o que confere a seu trabalho um generoso toque de fantasia e magia. É assim que ela consegue fazer com que assuntos terríveis sejam abordados como se fossem ilustrações de livros, embora nada aqui seja leve ou adocicado. Ao contrário.

É o caso da série Bailarinas, em que mulheres bailarinas são fortes, musculosas, com feições nada delicadas, descalças e tortas; ou a Mulher-Cão, de 1994, inspirada em uma história sobre uma mulher que vivia com animais em uma casa isolada e ouvia uma voz que lhe mandava matar todos os animais até que ela enlouquece com a voz e acaba engolindo todos um a um. Apesar de ter sido inspirada nesta história, a obra marca uma nova série de trabalhos que trazem mulheres solitárias, viscerais, ferozes e que possuem uma espécie de sexualização animalesca. 

É na série Abortos que Paula Rego reage com o pincel com ainda mais vigor e também dor, para falar de marginalização e vertolha. Ela retratou várias cenas de mulheres em situações de desamparo realizando abortos clandestinos. São imagens que retratam um drama infelizmente ainda presente, e que buscam trazer justiça às mulheres e ao direito de poderem exercer escolhas.

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