Sem flash

A fotografia analógica ganha cada vez mais adeptos e é comemorada mundialmente no Pinhole Day, no último domingo de abril

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Praticidade, velocidade, qualidade. Em um mundo em que tudo é rápido e muitas vezes instantâneo, o digital rege vidas como se fosse impensável deixar de acelerar. Tudo é para ontem, o agora já é passado. Nessa fome do novo, os detalhes passam despercebidos, os olhares se desencontram, os encontros se distanciam. E o novo nunca acontece, porque tudo é velho de um dia para o outro.

Esse exercício de pensamento vem em justa hora. O último domingo de abril, dia 24, é a data escolhida do Pinhole Day, um evento internacional criado com o objetivo de promover e celebrar a arte da fotografia pinhole. A ideia desse dia é que as pessoas deixem de lado, por um momento, o mundo em que vivem, altamente tecnológico, tirando uma fotografia com essa técnica.

E por que a fotografia pinhole? Porque é uma experiência pessoal, única.

A fotografia pinhole permite que você faça uma foto que necessita apenas de um recipiente protegido contra a luz, que pode ser uma prosaica caixa ou uma lata, com um minúsculo furo em um lado, como uma câmera e contendo material fotossensível em seu interior (papel, filme…). Você pode adaptar uma câmera já existente ou fazer uma dessas, artesanalmente. A experiência é um pouco mais especial quando se faz a própria câmera. Isso abre a possibilidade de ser mais criativo e também mais seletivo na obtenção de cada foto. “Coisas mágicas acontecem na fotografia pinhole…”, diz no site do pinhole day.

O movimento cresce a cada ano, desde que foi criado, como cresce o interesse pela fotografia analógica. Para além do pensamento nostálgico que ela possa sublinhar, essa forma de captação de imagens, em preto e branco ou coloridas, está longe de atingir o obsoleto.

Para o fotógrafo e educador Alexandre Lopes, esse interesse parece estar ligado à necessidade de desacelerar um pouco: “A fotografia analógica te oferece isso, te faz criar de uma maneira diferente. Ela pega pelo acaso, pelo inusitado e pelo erro e cria dinâmicas de raciocínio que costumam oferecer surpresas, muito em função da velocidade como as coisas se processam, pois diz respeito a um tempo dedicado a esse fazer”, comenta.

Não só no Brasil, mas no mundo todo, há uma retomada de festivais exclusivos voltados para a fotografia analógica. Acadêmicos, pesquisadores e herdeiros desses equipamentos também fazem parte do grupo de interessados. Quem escolhe a fotografia analógica cria uma relação umbilical com cada fotograma já que, afinal, eles são limitados. Também é comum que passe a ter muito mais cuidado na composição, observando mais a luz. Clica muito menos e cria muito mais. Talvez, para quem usa a fotografia analógica, o movimento “slow”, que prega a desaceleração na vida moderna, seja algo mais natural.

A pesquisa realizada pelo fotógrafo Neto Macedo em março de 2021 aponta um dado interessante: atualmente, o maior grupo de fotógrafos analógicos é jovem. “O fato de termos 36,1% de pessoas de 18 a 25 anos fazendo fotografia analógica no Brasil mostra que há um nicho a ser explorado e criado entre pessoas mais novas. O interesse existe. Sobretudo se o acesso a filmes, químicos e serviços de scanner/revelação fossem menos custosos”, diz a pesquisa.

A pesquisa aponta ainda que 74,1% dos fotógrafos analógicos (18 a 34 anos) são pessoas que não vêm do background da fotografia profissional analógica. Afinal, eles nem têm idade para ter sido profissionais quando o analógico era o padrão. Talvez nunca tenham usado câmeras analógicas em sua infância e/ou adolescência. “Em outras palavras, há um sinal de que o analógico tem apelo para pessoas jovens, que rejeitam o digital ou não enxergam o digital como única via”, comenta a pesquisa.

Em Belo Horizonte há vários coletivos com esse foco, como o NIL, Núcleo de Imagem Latente, formado por Alexandre Lopes, Tibério França, fotógrafo e professor na Escola Guignard, Cleber Falieri, que comanda o laboratório de fotografia da Belas Artes e Alexandra Simões, fotógrafa e pesquisadora. Esse é o grupo que promove o Pinhole Day em BH há mais de 20 anos. “Esse dia é especial, escolas e coletivos, no Brasil e mundo afora, produzem dessa forma artesanal, o que atiça uma outra forma de produzir e de ver as imagens. É uma abordagem que propõe uma outra maneira de enxergar. Não é uma fotografia muito limpa, nem rígida, tem distorções que, de certa maneira, assinam esse tipo de produção. Todo mundo bate o olho na imagem e já intui que foi feita com câmera artesanal”, comenta Alexandre.

Sobre o próximo domingo, que terá como palco para o Pinhole Day em Belo Horizonte a praça de Santa Tereza, ele acrescenta: “As pessoas estão sendo comunicadas pelas redes sociais e nesse dia vamos fazer demonstrações do uso do processo de raio x, além de levar uma câmara escura gigante, para que elas possam entrar dentro dela e ter a sensação de como é formada a imagem. Também vamos levar câmeras menores, feitas com caixa de papelão”, diz, acrescentando que, além de fotografar, vão revelar as fotos. “Esse dia é interessante porque fazemos contato com diversas pessoas, principalmente professores educadores da rede pública e tentamos levar essas informações para as escolas. A ideia é disseminar essas informações”. Mais que isso, o que esses grupos e coletivos ligados à fotografia analógica fazem é difundir a possibilidade do exercício de um pensamento crítico, algo cada vez mais difícil de encontrar em um mundo pasteurizado pelas imagens “perfeitas” geradas nas redes sociais.

FOTO DE CAPA  –  PINHOLE REVELADA EM RAIO X, POR CLEBER  FALIERI

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