Prosa e poesia

Projeto da Play Arquitetura para apartamento de Leo Gomes e Tulio Guimarães vai além da beleza e função com personalidade

Insta: Play ArquiteturaLeo GomesTulio Guimarães

Fazer uma casa que tenha a cara do dono, ou dos donos, é como compor uma melodia não para virar hit, mas pelo sentimento de pertencimento que ela provoca. Uma música que toca dentro, com notas, dissonâncias e ritmos que quem a compôs reconhece de imediato, e que pode ser assimilada ou identificada por outras pessoas pelo simples encanto da afinidade.

Na reforma desse apartamento, os donos tiveram toda a liberdade para expressar seus sentimentos e desejos e os arquitetos, Marcelo Play e Juliana Figueiró, da Play Arquitetura, serviram como maestro e maestrina, para que, como na música, tudo fosse executado com a perfeição (e as imperfeições também!) que pretendiam.

O prédio escolhido para a nova moradia do casal Leo Gomes, diretor de arte e designer gráfico e Túlio Guimarães, médico, foi construído na década de 1970. As amplas janelas, o pé direito alto, a iluminação e ventilação generosas e um tipo de proporção de espaço que as construções mais recentes não costumam oferecer serviram de base para conclusão da primeira etapa: definir que ali seria o novo endereço dos dois.

A ideia era dar uma leitura contemporânea aos espaços, e a grande reforma prevista pelo projeto foi revelando, surpreendendo e direcionando o processo. A conformação da planta original, com área social separada e oposta ao jantar era uma condicionante que exigia uma solução peculiar. A resposta veio na forma curvilínea que antecipa o corredor, permitindo maior fluidez entre os espaços. E foi essa curva o ponto de partida da parte social, que passou a se comunicar de um jeito bonito e gostoso com o jantar interligado à cozinha aberta, ampliando o clima acolhedor.

Como também não havia varanda, desejo esboçado pelos moradores, ela foi inventada em frente à janela da sala de jantar. Separada do ambiente por uma espécie de biombo em forma de escama de peixe feito em metal, essa área ganhou o mesmo piso da cozinha, o granito preto florido, cortado em quadrados de 20cm X 20cm, como um ladrilho hidráulico. A solução permitiu maior privacidade em relação aos vizinhos e serviu ainda para substituir prováveis cortinas pelo verde exuberante desse jardim.

A ampla área social foi acrescida com um lavabo e um escritório, espaço que antes se destinava a um dos quartos. Para ficar mais reservado, ele ganhou porta de correr camarão com o mesmo desenho do biombo do jantar. Na ligação entre a sala e este escritório, uma viga invertida que não estava prevista acabou se transformando em degrau de acesso, interpretado em mármore bruto. “São surpresas que podem acontecer em uma reforma”, comenta Leo Gomes que sempre alimentou a ideia de ter um cômodo em desnível e, nesse caso, ele aconteceu de maneira orgânica, agradando tanto os proprietários quanto os arquitetos.

Impossível entrar nesse apartamento e não dedicar alguns momentos para observar as portas dispostas no corredor em curva, uma instalação que poderia estar em exposição em qualquer galeria de arte. Além da beleza, o que também surpreende é que elas são funcionais e se destinam às louças e à rouparia da casa. As portas eram dos armários embutidos dos quartos e foram preservadas em dois: o que se transformou em escritório e o quarto de hóspedes. Embora conservadas, no restauro dessas peças descobriu-se os dois tons da madeira, um charme a mais. Como eram em dois tamanhos, o convencional e o dos maleiros, a composição orquestrada no corredor surpreendente pela beleza e, de quebra, pela função.

“Como trazer a materialidade com personalidade, sem ter que ficar inventando ou acrescentando acabamentos?” A questão, levantada por Marcelo Play diz respeito ao teto descascado, um trabalho artesanal, de paciência, que geralmente não pode prever o que será encontrado, nem o resultado final. “É uma ação investigativa. Resolvemos descascar para ver no que ia dar e foi legal o ponto em que chegamos. Queríamos deixar o aspecto mais natural possível. Repetimos a mesma história do teto da sala no quarto do casal, que ganhou um barrado horizontal”, explica.

O capítulo que concerne a reforma dos banheiros deixou-os novos, mas com uma certa imunidade transmitida pelos azulejos e ferragens, que se relacionam por mais distintos que sejam um do outro. Já o projeto luminotécnico foi pensado de forma enxuta, sem arrogância, sem abrir mão de peças que dão destaque para a luz em si e também para a forma das luminárias.

Decoração

Na hierarquia das importâncias, o que vem em primeiro lugar é o espaço. É ele que dá condição de uma decoração acontecer. Ela não existe a priori, vai se materializando a partir do momento em que o projeto é executado até chegar em um lugar que, de preferência, seja a cara de quem vai desfrutar de cada canto da casa.

Aqui, ela foi feita em perfeita harmonia entre as propostas dos arquitetos e os desejos dos proprietários. Cada um trouxe dos antigos endereços um pedaço deles e ainda algumas peças foram acrescentadas. “Ficou a cara deles. Não consigo fazer nenhum tipo de imposição em um projeto de interiores. A gente vai nessa corrente de vontades e afinidades eletivas, contribuindo o tempo todo. Tem que ser dinâmico e orgânico ao mesmo tempo. Eles têm uma história de adquirir coisas nas viagens que fazem e o que nós fizemos foi contribuir no layout geral, ajudando e sugerindo”, comenta Marcelo Play.

O arquiteto conta que fizeram um levantamento de 100% dos móveis de cada um, viram o que era importante e foram compondo juntos o que foi usado no final. Isso diz respeito também às peças, às obras de arte que já tinham e as peças que foram adquiridas, como o tapete estonado, persa tradicional, que compõe o estar.

“É um projeto que não tem nada ostensivo, mas se você observar com cuidado, tem muitos detalhes sofisticados. A opção era decorar com o que a gente já tinha, afinal estamos juntos, mas não nos anulamos” conta Leo. A curadoria feita a quatro cabeças mostrou que muito do que eles já tinham, quando em um novo layout, criava um diálogo até mesmo na paleta de cores dos quadros. “Não precisava, mas foi uma grande coincidência”, diz Léo.

São muitas as histórias para contar, como o buffet na cozinha, transformado em bar, onde os convidados do casal podem fazer seus drinks, com tudo à mão, gerando uma cena bem divertida. É o caso também das peças expostas, da arte que aproxima. É como Léo Gomes diz que costuma acontecer: se a pessoa é observadora, ao entrar na casa deles, consegue fazer uma leitura da personalidade dos dois. Um apartamento que tem calor e aconchego.

O resultado para os dois é que, com a casa montada, o sentimento é de que já viviam ali. “Não teve aquele impacto de termos que assimilar os ambientes. É um espaço feliz em que a gente se sente acolhido”, revela.

FOTOS: Studio Tertúlia

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