Pretos e plenos

Galeria Periscópio abre a exposição intitulada “corpocontinente”, com curadoria de Fabíola Rodrigues e trabalhos de 16 artistas com poéticas contra-hegemônicas

Insta: Galeria PeriscópioFabíola Rodrigues

Por muito tempo, ser artista significou distinção social, refletindo privilégios de classe, raça e gênero. Ainda bem que uma nova geração de artistas afrodiaspóricos ganha cada vez mais espaço nas instituições no Brasil e no mundo, bem como têm se multiplicado as reinvindicações por presenças mais diversas no meio da arte em geral.

A exposição “corpocontinente” que a Galeria Periscópio abre amanhã, dia seis de novembro, parte de uma construção social calcada nos intercâmbios entre as culturas dos povos originários do Brasil e das populações trazidas da África. A curadora Fabíola Rodrigues

ressalta como os trabalhos constituem poéticas contra-hegemônicas, as quais apontam para o modo como aqueles laços entre matrizes culturais subalternizadas reverberam e inspiram a produção artística na contemporaneidade.

“Corpocontinente” destaca obras de 16 artistas: Sebastião Januário, Rosana Paulino, Kelma Zenaide, Charlene Bicalho, Marcel Diogo, Rafael RG, Dayane Tropicaos, Marcos Siqueira, Natan Dias, Ingrid Barros, Jess Vieira, Mônica Maria, Luana Vitra, Ana Elisa Gonçalves, Davi de Jesus do Nascimento e Pedro Neves.

Fabíola revisitou os princípios da cosmologia bantu-kongo para pensar na criação dessa “nação afropindorâmica”, com a qual as obras selecionadas por ela compartilham afinidades. A escolha pela leitura dessa cosmologia tem a ver com a constatação da presença da herança bantu entre a população, majoritariamente negra, que constituiu a fundação de Minas Gerais

Na exposição, há dois núcleos, “corpo-território” e “corpo-paisagem”, que propõem articular não só uma perspectiva voltada para a estética dos trabalhos. “Eu não me baseei apenas numa análise das obras, mas também numa análise social dessa produção artística”, diz Fabíola.

Além disso, Fabíola, novamente ancorando-se na cosmologia bantu-kongo, também utiliza cinco elementos, o ferro, o fogo, a terra, a água e o ar, para criar outras conexões entre as obras, trazendo outros signos ligados à natureza e suas materialidades. “Numa sala são mais predominantes os elementos ferro, fogo e terra, e na outra, a água e o ar. Isso permite outras camadas de leitura e trazem outras referências tanto materiais quanto espirituais e mitológicas”, acrescenta a curadora.

Em termos de linguagens, a mostra é bem diversa e contempla videoinstalação, desenho, pintura, escultura, fotografia e instalações. Como diz o texto de Pollyana Quintella para a revista Continente, ao falar sobre o trabalho de Rosana Paulino, artista que está na exposição da Periscópio, “a famigerada democracia racial, proclamada por Gilberto Freyre e aplicada por poderes oficiais como o de Salazar e da ditadura militar brasileira, colaborou para que o debate sobre raça fosse abordado com pouca complexidade em nosso meio cultural. No Modernismo, são emblemáticas as mulatas de Di Cavalcanti, as figuras negras de Tarsila do Amaral e Lasar Segall, todas alegorizadas, sem identidade própria. Embora a mestiçagem freyriana tenha trazido uma abordagem positiva para o debate sobre identidade, acabou por reiterar o projeto de branqueamento da cultura brasileira, ocultando violências de outras e muitas ordens. Ao contrário de democracia, o que persistiu nessas produções foi uma parcela de discriminação racial, tornando o negro um elemento exótico de interesse, rodeado de fetiche e distanciamento.

Sempre é tempo para refletir sobre um assunto urgente, que nos permite olhar para traz com mais clareza para que, enfim, a gente possa dar um passo adiante. Como diz a letra de Haiti, de Caetano Veloso, “Só pra mostrar aos outros quase pretos/ (E são quase todos pretos)/ Como é que pretos, pobres e mulatos/ E quase brancos, quase pretos de tão pobres são tratados. Mais que isso, até, para mostrar também uma arte rica, plena, que é tão nossa e tão a nossa história.

Serviço: Abertura da Exposição “corpocontinente”, dia 6/11, das 10h às 17h na Galeria Periscópio (Rua Tenente Brito Melo, 1217, Barro Preto).

Visitação: 6/11 a 19/12; de 3ª a 6ª, das 10h às 19h; sábado, das 10h às 16h.

Entrada gratuita.

FOTOS: EDUARDO ECKENFELS

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