O alicerce é a palavra

O arquiteto Gustavo Penna fala sobre trabalho remoto, projetos em andamento e sobre delicadezas, arte e asperezas que nos rodeiam

Insta: Gustavo Penna Arquiteto e Associados

Como os profissionais da arquitetura estão lidando com o trabalho a distância? E mais: como um escritório consegue continuar produzindo muito, com o trabalho sendo feito cada um em seu canto? Levantei essas questões em uma longa conversa com Gustavo Penna, autor de obras emblemáticas da arquitetura, como a Escola Guignard e o Ateliê Wäls, um amplo centro cervejeiro, um projeto que mostra a união da arquitetura e da cerveja de um jeito lúdico, ambos em Belo Horizonte e a a Fundação Zerrenner, em Sete Lagoas (MG).

“Eu acho péssimo, porque o trabalho remoto, em equipe, é dificílimo. No escritório, estamos acostumados a trabalhar juntos, a trocar ideia. O rendimento piorou, a coisa não flui. O projeto de arquitetura é como um jogo, é leve, um passa a bola para o outro, volta para você de novo e, agora, estamos sentindo falta do contato do olhar, do gesto. À distância perde a naturalidade”, desabafa Gustavo.

Ao mesmo tempo em que vê as dificuldades do agora, o arquiteto não perde o humor para falar do futuro: “A tendência vai ser a gente abandonar essas práticas quando o mundo ficar melhor. Fomos transformados nisso aí, uma imagem da medalhinha pra cima, ficamos reduzidos a um olhar desviado porque, na tela do computador, nunca é o olhar no olho. A gente olha para a câmera, olha pra imagem da gente, olha para o outro. Ninguém gosta de pessoas que não olham nos olhos e hoje ninguém está fazendo isso”, diz.

Entre os trabalhos em várias escalas a que o arquiteto se refere é difícil enumerar todos os que o seu escritório tem desenvolvido. Um deles diz respeito a Conceição do Mato Dentro, em Minas. Gustavo explica, resumidamente, que ele consiste em requalificação da cidade, em busca de uma escala bucólica, das texturas, da vegetação, com espaços para o lazer da população no entorno, tudo com um olhar de “claro raio ordenador”, diz, citando Carlos Drummond de Andrade.

O projeto para o Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, no MIS Experience, que tem foco em experiências multissensoriais e na união entre a arte e a tecnologia, também está sendo desenvolvido pelo escritório para a próxima mostra, sobre Portinari, que deve entrar em cartaz ainda este ano, após a exposição Leonardo da Vinci – 500 anos de um gênio,

Há ainda a expansão do Museu de Congonhas, que faz parte da revitalização do centro histórico de Congonhas, MG, aprovada pelo BNDES. A cidade reúne um impressionante acervo cultural composto por igrejas de arquitetura barroca e esculturas do artista Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. A expansão, além da utilização de recursos tecnológicos, prevê a Galeria dos Profetas, com réplicas, e ainda um anfiteatro para receber ações culturais complementares.

Previsto para ser concluído em 2022, o Sesi Lab, em Brasília, que vai revitalizar e restaurar o antigo Edifício Touring Club do Brasil, além de criar um anfiteatro externo para atividades culturais ao ar livre, galerias de exposições, área de oficinas educativas, loja e café, também tem projeto assinado por Gustavo Penna. O objetivo é realizar um corredor cultural composto pela Biblioteca Nacional, o Museu Nacional e a Catedral de Brasília. Um detalhe importante ressaltado por Penna é que o SESI Lab vai ter mentoria do Exploratorium, famoso centro interativo de São Francisco, na Califórnia.

Não para por aí. Há outros projetos em andamento, como o Condomínio Três Vales, em Nova Lima, BH, ainda em construção, cercado por muito verde e com toda a infraestrutura de esportes, lazer e serviços.  Como diz Gustavo Penna, os interlocutores são os mais variados.

 Para garantir tanta produtividade, o arquiteto tem uma máxima: “Em primeiro lugar, eu não trabalho, eu me divirto. Se alguém quiser contratar um arquiteto mal-humorado e sem esperança, essa pessoa não sou eu. Não quero mergulhar no tempo presente. Quando eu contemplo a história da humanidade, já passamos por momentos tão difíceis, bárbaros, não tínhamos nem ferramentas jurídicas, nada. Então, eu imagino que alguma coisa aconteça, de fato, com o ser humano.

E o que o luxo significa para o arquiteto. “Eu não acho bonito o nome luxo. Gosto muito do que é harmônico, gosto do equilíbrio e da qualidade. Quando você busca a qualidade, ela é uma coisa transcendente, tem dimensão na durabilidade, no simbolismo que ela carrega. Outro simbolismo é a pertinência que dialoga com o tempo que ela vive. Se ela é tecnológica é porque não aceitou ser feita com critérios superficiais, exatamente para não ser irrelevante. Quando eu falo de uma coisa que é bem-feita é porque ela envolveu intuição, transcendência e conhecimento”, reflete.

O pensamento de Gustavo flui: “O homem precisa de qualidade porque acrescenta algo ao mundo. O maior inimigo da arte é o bom gosto. A arte é uma intuição, um sentimento. O bom gosto não é gerador de transformação. A arte transforma, muda o mundo. Amílcar (de Castro) com corte e dobra mudava a atmosfera do lugar. Esse cara é o produtor convicto da qualidade, no seu sentido mais lato, como uma incorporação de todas as virtudes, pelo menos na tentativa”.

Para finalizar, Gustavo é também pura poesia: “Quero ficar longe dos produtores de tristeza. Eles, para mim, precisam desexistir. Desexistam! Acho que as pessoas definitivas, que tem certeza de tudo, costumam ter discussões tão pobres. Sou um perguntador eterno. Só faço o que não sei. Se você me perguntar se eu sei fazer a sua casa, eu vou te responder que não. Por quê? Porque preciso aprender com você primeiro. Agora, ferramentas, eu tenho. Estou preparado para fazer com você a sua casa. Com a cidade é a mesma coisa. O que faz a arquitetura é a palavra, isso é que vai se incorporando, virando coisa.”

Foto capa: Fernando Furtado

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