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No Museu Yves Saint Laurent, em Paris, ateliê de trabalho do estilista continua intacto, exatamente do jeito que foi deixado

Insta: Museu YSL Paris

Qual é o seu espaço de criação e liberdade? O que você tem dentro das gavetas? Em cima da mesa? O que te inspira? Nestes tempos em que o lugar de trabalho e a nossa casa se confundem,  sentimos a urgência de reinventar o nosso canto. Então, nada como buscar a inspiração nas casas e espaços míticos dos grandes criadores.

Eu, particularmente, tenho uma fascinação pelas casas de escritores, pintores, grandes personagens históricos ou não. Sempre que posso visito, sou curiosa. As casas são elementos fundamentais pra ajudar a compreender a trajetória de um artista. Guardam segredos e miudezas. Balzac por exemplo, fugia dos seu credores pela porta do fundo da sua casa, que dava em outra rua e que, fora a pandemia, ainda pode ser visitada. Victor Hugo morava na Place des Vosges e tinha uma passagem secreta para sair sem ser visto por sua mulher. 

Vou dividir com você aqui, alguns dos espaços que mais me encantaram, parte da minha coleção secreta de lugares imperdíveis, as vezes impossíveis de serem visitados. Hoje começamos por Paris, essa cidade linda, que não se abre facilmente, onde é preciso tempo e protocolo para passar as grandes portas cochère e descobrir o que está do outro lado das fachadas.

Que tal visitar a moda e o luxo de Yves Saint Laurent para ficar ainda mais motivado a a repensar seu próprio espaço ? Nosso destino é o número cinco da Avenue Marceau, no 16 eme.

Esse foi o endereço do cartão de visitas de Yves  Saint Laurent em meados da década de 70 até a sua partida.  A Maison virou museu em 2017, mas o atelier de trabalho deste imenso e talentoso Monsieur está intacto, do jeitinho que ele deixou. Você pode percorrer com os olhos e descobrir objetos, frases, colagens, texturas tecidos, cores.

As paredes do seu atelier testemunharam o surgimento de inúmeras coleções em homenagem aos artistas que Saint Laurent amava :  Velasquez em 1978, Delacroix em 1979, Matisse em 1983, David Hockney em 1988 ou ainda Marcel Proust em 1990.  Mas neste espaço ele não desenhou apenas novos modelos, mas uma nova maneira de vestir.

O que estou propondo não é uma nova linha, mas, sim, liberdade. A masculinidade não está mais relacionada com a flanela cinza e o ombro transbordante do que a mulher com a mousseline de seda. Acho que acabaram os dias das bonecas femininas e dos homens dominadores ”. YSL

Lá fora os Movimentos de Libertação das Mulheres ganhavam as ruas pelo direito à igualdade de oportunidades e contra o feminicídio e a discriminação de gênero, mas Yves fazia a sua revolução com rolos de tecidos, com lãs Grain de poudre e seu smoking forever.

« Para mim, nada é mais bonito do que uma mulher vestida de homem! Porque toda a sua feminilidade está em jogo: uma mulher não cabe na roupa de um homem, ela precisa assumir seu vestir, e assim sua feminilidade se expressa. » YSL

E para que essa revolução ganhasse as revistas da época, não podia faltar um grande fotógrafo: nada menos que Helmut Newton. Em 1975, ele imortalizou o tuxedo de Yves Saint Laurent em fotografias em preto e branco que foram direto para as páginas da Vogue Paris. As fotos foram feitas no Marais, do outro lado da cidade, numa pequena rua chamada rua Aubriot, onde morou o fotógrafo. A modelo é  a dinamarquesa Vikebe knudsen, perfeita personificação do « Dandi » segundo o escritor Baudelaire « aquele que não tem outra profissão senão a elegância. »

Mas de volta ao número 5 da Rua Marceau,  ao hotel particulier que viu passar muitas outras mulheres glamurosas, atores e atrizes que visitam seus modelos nas produções cinematográficas da época. Inclusive Romy Schneider. Quem viu os filmes, consegue imaginar todo o ritual, o vai e vem nas escadarias, os corre-corre das produções antes dos grandes desfiles.

Nesse atelier,  Yves Saint Laurent desenhou também  a série de cartões em formato de pôster que enviava sempre para seus amados, familiares, amigos e colaboradores. A cada final de ano, um design diferente tinha como fio condutor a palavra “AMOR”.  Love. Na época não era a saúde que estava em voga. Ainda bem. O amor, nunca é demais.  Quando se renova então, que maravilha de tema para paletas cromáticas, colagens, desenhos. Amor, algo tão fundamental pra gente colocar na nossa casa e no espaço de trabalho. As pessoas nos deixam um dia, mas nos inspiram para sempre.

Glaucia Nogueira é mineira. Redatora, diretora de criação e diretora de filmes. Hoje se dedica a fotografia. Criou a plataforma IANDÉ para valorizar a fotografia brasileira na França. Mora em Paris desde 2007.


Fotos: Glaucia Nogueira – Jéssica Lia

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