Irreverência sob medida

À frente da Blade Alfaiataria, Marcelo Durães mistura arte, competência e altas doses de bom humor em tudo que faz

Insta: Blade Alfaiataria

Para virar criança de novo, não custa nada. Na última CASACOR Minas, realizada em 2019 no Palácio das Mangabeiras, por exemplo, ele se encantou com o carrinho de golfe. Não por necessidade de ser transportado de um ponto ao outro de forma motorizada, mas pela oportunidade de uma brincadeira e de dar boas risadas. Aos 61 anos, Marcelo Durães, ou Marcelo Blade, ou só Blade, como queira, é capaz de dizer pérolas como a que escutei dele recentemente: “Você pode não acreditar, mas me deu um negócio de chegar nos 70! Tem um formigueiro aqui dentro. Estou muito animado, muito disposto, já vacinado e usando máscara!” Impossível não soltarmos uma sonora gargalhada depois de uma dessas.

A máscara protetora a que ele se refere, lógico, tem grife e muita história para contar. Impecavelmente confeccionadas com tecidos normalmente utilizados para fazer camisas de primeiríssima qualidade e com a etiqueta Blade, elas não foram pensadas como uma fonte de renda, pelo menos no início. O certo é que são disputadas por quem é presenteado com uma delas, ou mesmo por quem as compra. “Não pensei nelas como um negócio, mas ajudaram a engordar o caixa da empresa”, diverte-se Blade. Adepto incondicional de performances das mais variadas, com as máscaras não foi diferente. Em uma delas, realizada no bairro de Lourdes, zona sul de Belo Horizonte, ele anunciava a doação em um megafone e quem não pegasse a sua, tinha que pagar uma prenda que, no caso, era comer uma banana. “Esse marketing da alma acompanha tudo o que faço”.

E acompanha mesmo. O menino que aos 13 anos começou a trabalhar com o pai na Hermano Alfaiataria, que levava seu nome, aprendeu os detalhes de confeccionar uma roupa de alta precisão e de encaixe perfeito no corpo. Com o tempo, aliou à experiência que ia acumulando, uma dose de irreverência e desse tal ‘marketing da alma’. Sobre o pai, é importante lembrar que a competência de Hermano era tanta que ele rapidamente conquistou uma clientela exigente entre os sobrenomes mais importantes da cidade, fossem eles políticos ou profissionais destacados, além de ter conquistado prêmios nacionais também, como o Tesoura de Ouro, na categoria traje a rigor, com um terno clássico e refinado, inspirado nos cortes italianos.

Seguindo os passos da alfaiataria do pai, que teve início em 1965, Marcelo lançou a marca Blade Runner mais tarde. Primeiro, trabalhando com jeans e, após a morte do pai, suprindo um mercado carente da alfaiataria bespoke, aquela sob medida e personalizada, com a Blade Alfaiataria. O staff contava com os antigos alfaiates e toda a equipe de produção de Hermano e, a ele, Marcelo Blade acrescentou o tempero de uma mente criativa e irreverente por natureza.

O que começou em 1992, comemora 30 anos de trajetória. Hoje, o nicho de clientes são noivos exigentes e uma nova geração que prefere a excelência em detrimento do fast fashion. No início, o inquieto Marcelo investiu no marketing porta a porta, com uma agenda a domicílio. “Saí visitando as pessoas e nunca mais parei”, diz mais uma vez com um sorriso largo. E logo nesse começo, conheceu a mulher, Simone Marques, com quem está casado até hoje, dividindo trabalho e um companheirismo fácil de ser notado. Os dois desenvolvem também uma linha gourmet, que é considerada por ambos a menina dos olhos da empresa, com aventais personalizados que estão em alguns nobres restaurantes de Belo Horizonte, como a Pizzaria Olegário e o Xapuri e com os quais costumam presentear clientes e amigos. “Muita gente usa nossos aventais. Eles são chic. Entendemos que seja qual for a roupa que você escolhe ou precisa vestir, ela tem que ser genial”, diz sem rodeios.

Amante das artes, o casal sempre foi frequentador assíduo de vernissages. Antes mesmo, na década de 90, na efervescência de um dos bares mais memoráveis da cidade, o Drosóphyla, Marcelo já gostava de patrocinar parte de eventos, como a confecção dos convites e o buffet, por exemplo. “Aquilo virou uma espécie de cachaça, era uma forma de fazer meu marketing pessoal, unindo o útil ao agradável”, lembra.

A bicicleta com mil e uma parafernálias com a qual costuma aparecer em eventos também é outra marca registrada de Marcelo Blade, acompanhada de muitas histórias. “Um dia, fui trocar o pneu do carro, entrei na loja de bicicleta ao lado, vi um triciclo no fundo e saí de lá pedalando. Nunca mais parei”, ele conta. A inspiração veio das bicicletas que os antigos tintureiros utilizavam para levar as roupas dos clientes, sempre com uma arara cheia de cabides. Marcelo olhava aquilo e mineiramente pensava: “Quero um trem desses pra mim”. Quando conseguiu realizar o sonho, passou a ser convidado para abrir festivais dos mais diferentes temas, muitos deles fora da capital mineira.

Para cada aparição, mudava a decoração da bike fazia dela seu outdoor ambulante. “Uma coisa foi ligando na outra e tudo aconteceu naturalmente. Não dou conta de ficar esperando”, explica. Por isso, atrelado ao meio de transporte originalíssimo, ele costuma levar junto o trabalho da alfaiataria, sem esquecer nem mesmo das cartelas de tecidos para camisas e calças e mesmo um busto vestido com um blaser de sua marca. De chapéu coco gigante, fantasiado de palhaço, com megafone em punho, a figura de Blade é inesquecível para quem já o viu assim. “As pessoas me vêem nos eventos e eu acabo fazendo negócio ali mesmo”. Além da bicicleta, ele também criou um carro cheio de coisas dependuradas e seis televisões. “Parece uma espaçonave, é uma arte móvel, diverte-se.

Esse é um dos encantos de Marcelo Blade, que mistura arte, diversão e vida, que tem uma rotina de levar café na cama para Simone até hoje, de ler jornal físico todos os dias, depois fazer caminhadas, pedalar e ter sempre tempo para uma conversa boa. Do tipo que trata o tomador de conta do carro e clientes ilustres com a mesmíssima cordialidade ele faz suas ressalvas: “Não sou bonzinho com todo mundo, sou normal, mas trato todo mundo muito bem”, garante.


FOTOS GENTILMENTE CEDIDAS POR MARCELO BLADE

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