Cada um é um

No meio da multidão de apartamentos do JK, projetos da Play Arquitetura se destacam pela boa arquitetura e marcenaria impecável

Insta: Play ArquiteturaViva JK

Projeto de Oscar Niemeyer, o Conjunto Governador Kubitschek faz parte da paisagem urbana de Belo Horizonte desde os anos 1950, quando a cidade tinha uma população de pouco mais de 350 mil habitantes. Se hoje, mesmo com a cidade verticalizada, a construção ainda causa impacto, imagina naquela época?

Os números impressionam: de proporções gigantescas, o conjunto é formado por dois prédios, de 26 e 36 andares, respectivamente. Ao todo, são 1.086 apartamentos em uma área total de 1,6 mil metros quadrados.

O edifício mais baixo, situado na rua dos Timbiras, tem aproximadamente 100 metros de largura, enquanto o mais alto, situado na rua dos Guajajaras, possui metade dessa extensão, porém a mesma medida de altura. Ambos abrigam apartamentos e alguns estabelecimentos comerciais.

São mais de cinco mil pessoas habitando essa cidade vertical, que se impõe na paisagem urbana com suas dimensões monumentais. Dá para imaginar como é a casa dessas pessoas? Claro que há semelhanças entre algumas, muitas diferenças na maioria e também um jeito particular de cada um habitar seu espaço. Quando foi concebido, o JK encarnava o sonho de novas formas de morar, novas concepções sobre o conforto e o moderno, novas escalas de habitação, novas formas de sociabilidade, um novo jeito de se estar na cidade.

Hoje, com a cidade cada vez mais amontoada de edifícios de diversos tamanhos e propostas, a construção de Niemeyer, recentemente tombada como patrimônio cultural, continua a se destacar na paisagem. Internamente, ele revela boas descobertas em projetos de arquitetura que conseguem deixar as áreas dos apartamentos ainda mais fluidas e humanizadas, ao mesmo tempo em que ganham uma ocupação mais racional.

Da multidão de apartamentos, o TENDÊNCIAS selecionou três projetos, todos assinados pela Play Arquitetura, que mostram soluções que apresentam uma percepção particular de lar, ainda que feitas a partir de plantas semelhantes. “O JK tem modelos de apartamentos diferentes e os que são duplex são bem interessantes, com planta em dois níveis e janelas de lados opostos, de onde é possível ver o nascer do sol e o poente”, comenta o arquiteto Marcelo Alvarenga, da Play Arquitetura.

Em todos os três, os detalhamentos de marcenaria são únicos. Mesmo assim, há algo em comum neles: além de primarem pelo aspecto funcional e pelo visual, o que apresentam é a verdadeira arquitetura de interiores, reconfigurando o espaço interno de forma harmoniosa e de acordo com o uso dos moradores. Os tacos em peroba, originais da construção, os janelões e o pé direito permaneceram intactos (ressalva feita apenas para o rebaixamento feito na parte da cozinha).

Na primeira reforma, para um apartamento de 55m2, a área de serviço ocupou o que antes era a cozinha que, por sinal, foi parar na sala. Uma sacada original foi repetir o formato do taco de peroba no granito da área molhada rente à pia. O resultado? Conforto ampliado e cozinha com clima de evento mais social.

Outra sacada que amamos está na escada, na brincadeira do corrimão da escada de acesso em baixo relevo, na mesma parede que divide o espaço da escada que sobe para o quarto, na qual o corrimão foi instalado em uma abertura que conecta o espaço e amplia a comunicação visual, oferecendo sensação de mais espaço. Já no banheiro, a pia foi parar no hall do quarto, na mesma pegada de ampliar a sensação do espaço.

A outra reforma, do apê branco, de três janelas e com 67m2 alterou a planta que considerava dois quartos que viraram um e assim, a sala foi ampliada, com marcenaria bem arquitetônica, que divide e comunica os espaços do estar e da cozinha. Detalhe, ela também foi pensada para a circulação dos gatos, moradores ilustres da casa.

Por fim, o apartamento cujo projeto original contempla quatro janelas e com 90m2, permaneceu com os dois quartos previstos originalmente, embora a planta tenha sido toda alterada, dispondo as suítes em pontas opostas. Apesar da alteração, o arquiteto afirma que ela foi possível, pois o JK tem pilares imensos, de 1,5m de largura.  Por isso, nada foi alterado na estrutura, com vigas e pilares ficando no mesmo lugar.

Um dos pontos altos desse apartamento, é que a marcenaria oferece estantes para os dois lados, com dois blocos de armários que dividem e integram, sem um ambiente afetar no outro. E aí também ela foi pensada para a movimentação dos gatos, já que liga a área de serviço até o quarto oposto e os pets podem circular por cima, descendo no closet.

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