ATELIÊ ABERTO
A arte de ser quem

O artista Francisco Nuk subverte as convenções e humaniza cada peça que executa para que ela tenha sua voz própria

Insta: Francisco NukGaleria LumeGaleria Radiante

Estacionamos o carro um pouco abaixo da entrada do ateliê, de forma que ainda não dava para ver nada lá dentro. Mesmo porquê, o sol de outono no meio da tarde não gosta de escancaramentos, vai pelas frestas. Enquanto dávamos os primeiros passos para encontrar Francisco Nuk, fomos recebidos por Oto e a doçura de um rabo que abanava dando boas vindas. “Olha só! Parece até cidade de interior”, comentou Leopoldo enquanto o afagávamos retribuindo a cordialidade.

Oto nos acompanhou até Chico, que já nos esperava e fomos recebidos com a mesma amabilidade, porém com o clássico toque de cotovelos, que certamente não intimida os caninos fofos, como é o caso de Oto. Entramos. Primeira sensação: um bem-estar que mais tarde comentamos tê-lo sentido já na soleira da porta. Lá dentro, Chico, Oto sempre ao lado, Leopoldo e eu entrosamos em uma conversa daquelas que não precisa de início para perceber que também não precisa ter fim.

O ateliê de um artista tem sempre uma mágica inexplicável em palavras e também difícil para ser traduzida por quem a sente para o próprio artista. Era uma tarde calma e ensolarada, de temperatura amena e um silêncio poucas vezes quebrado pelo barulho do motor de um carro. Os motores das máquinas de Chico estavam parados. Tudo muito limpo, embora ele tenha me alertado quando quis me sentar: “Cuidado, que pode estar empoeirado. Marcenaria, você sabe como é, né?” Não estava. Além das máquinas, um protótipo em curva em cima da mesa, uma meia parede em azul com a parte alta em compensado de madeira composta por quadros que o artista comprou ou ganhou, as ferramentas e tantos outros detalhes guardados na memória. “Quis dar a minha cara a esse espaço”, ele vai comentar mais tarde.

Francisco Nuk assinou contrato com duas galerias recentemente, a Lume em São Paulo e a Radiante, no Rio. Talvez por isso, começamos a conversa falando sobre o mercado das artes. “O mercado da arte tem toda uma particularidade que não faz parte da arte em si, muito menos com a forma como a gente deveria olhar para a arte”, ele diz citando Jeff Koons, um dos artistas mais bem pagos da atualidade e também um dos mais influentes, populares e controversos do mundo da arte contemporânea. “Existem artistas que sabem trabalhar com o mercado muito bem, de forma que o que ele faz vira arte, mas esses artistas não podem ser comparados com Picasso ou com Van Gogh”, diz.

Essas anotações mentais, tornadas verbos de Francisco, parecem fazer parte dos questionamentos que intrigam o expectador ao se deparar com sua arte e também a ele, o artista. Ao torcer a madeira, envergar uma cômoda, arquear uma prateleira, tirando de ambos a utilidade prática não sem antes se render a experimentos que possam, em sua obra, nos afrontar com as sutilezas entre essa antítese que reúne útil e inútil ao mesmo tempo e no mesmo espaço.

Nada disso importa, na verdade. Importa que a arte de Francisco Nuk é sólida e foi construída entre encontros e acasos, numa linha do tempo que se mostrou bastante profícua para revelar o artista que está diante de nós.

Faço uma pausa para falar de um sentimento que ronda todos nós, integrantes dessa infinita rede social que vai nos emaranhando do amanhecer ao cair da noite e, em muitos casos, madrugada adentro. Muita gente já conhece o trabalho de Nuk pela janela do instagram, conhece também sua fisionomia, a atual barba, os olhos verdes. Era como a gente o conhecia até então, sempre maravilhados, como um montão de gente é, a cada post que publica.

Mas, afinal, quem é Francisco Nuk e mais: “quem” são todas aquelas peças que compõem uma obra coesa, que parte da marcenaria fina para remodelar o nosso imaginário com algo que está ali, na nossa frente? “Vocês querem ver as obras?”, ele nos pergunta a um certo momento, quando passamos da marcenaria para outro cômodo, um pouco excitados por ver ao vivo os objetos pelos quais já nos apaixonáramos à distância.

Enquanto vamos observando detalhes, ele nos conta da infância, vivida ali mesmo naquele espaço, que já era uma marcenaria, para onde ele ia sempre que podia, já que morava em frente, na conhecida Casa Rosa. Fala dos pais, o artista Sérgio Machado, a mãe também artista, Paulina Ribeiro.  De como foi dissuadido no começo para não seguir os mesmos passos que os deles, do amor pelo esporte, o rugby em particular, que o fez atleta e por isso a escolha da Nova Zelândia para fazer intercâmbio quando adolescente.

Tanto lá, como na Argentina, para onde foi já no curso superior de Educação Física para jogar e estudar rugby e, posteriormente, na Austrália rumo que tomou já formado, sabendo que não iria seguir a profissão, a marcenaria não só roçou seu desejo como o abraçou, imagino que daquele jeito que só mãe sabe fazer quando encontra um filho desgarrado, rs. Não só conviveu com a marcenaria fina, como se aprofundou na função e nos estudos, complementados na biblioteca pública da cidade onde morou por cerca de dois anos.

A volta ao Brasil é uma outra história, assim meio de supetão, meio fora do planejado. Mas foi definitiva. Começou a ter mais contato com o pai, trabalhando no ateliê dele.  Nesse meio tempo, Sérgio começou a instiga-lo: “Ó, eu acho que você tem a pulguinha das artes”.

Ainda resistente entre lá e cá, Nuk resolveu ficar raízes, e entrou para o espaço da marcenaria onde produz sua obra desde 2018. “Reformei tudo, fiz toda a parte elétrica para deixar do jeito que está e pensei que iria trabalhar com mobiliário”, conta. A arte falou mais alto. “Me veio a ideia de fazer o anti-design, algo que não funcionasse, que fosse inútil. Seria apenas uma peça escultural”, conta. “A partir do momento em que fui entortando a madeira, eu me via nela, e como eu a humanizava, ela poderia ser o que quisesse. Eu não posso dizer se é um móvel ou uma obra de arte. O próprio objeto é que vai decidir isso”. Saímos do ateliê de Francisco Nuk, conhecemos o ateliê de seu pai à distância de poucos passos e uma escada, fomos, enfim, brindados com uma tarde mágica, repleta de experiências, observações, aprendizados e anotações que jamais se transformarão em palavras. São narrativas que guardamos de cada viagem a um ateliê que nos abre suas portas. Obrigada Chico, obrigada, Sérgio. Já avisamos que vamos voltar outras vezes!

FOTOS: Gustavo Andrade – Eliza War – Maria Cândida Machado

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